A difícil arte de viajar guiado por computadores e GPS


Imagem de uma bússola sobre um mapa

No final de semana passado saí de carro do Rio de Janeiro, rumo a Ribeirão Preto. A razão para isso é que o carro foi comprado zero aqui (Ribeirão), e agora que decidi vendê-lo descobri que aqui ele vale uns cinco mil Reais a mais do que no Rio.

De fato, quando mudei-me para o Rio eu fui de carro de Ribeirão Preto para lá, acompanhado de um amigo, mas meu senso de orientação é um lixo, e eu não saberia voltar pelo mesmo caminho, razão pela qual resolvi — é claro — apelar para a tecnologia.

Imagem de uma bússola sobre um mapa

Antes de sair de casa planejei minha rota no Google Maps. Eu tinha convicção de que teria de passar por algumas cidades (Aparecida do Norte, Taubaté, Jacareí), mas o Maps insistia em me sugerir uma rota cortando um pedaço do sul de Minas Gerais. “Deixa para lá”, pensei, “amanhã o iGo mostra como se encontra um caminho”.

No domingo de manhã abasteci o carro, chamei meu amigo (porque eu não sou doido de fazer uma viagem longa dessas sozinho — se for para eu me ferrar, quero que alguém a quem quero bem se ferre comigo), e pegamos a estrada, ambos munidos com os respectivos iPhones e iPads, e no carro um aparelho de GPS convencional, com inteligência provida pelo iGo 8.

Itajubá

Itajubá também tem um Cristo, mas eu não cheguei a vê-lo.

Foi tudo muito lindo, até chegarmos em Lorena, SP. Lá o iGo queria que saíssemos da Rodovia Presidente Dutra e seguíssemos em direção a Itajubá, MG. Falei ao meu amigo para ignorarmos as orientações do GPS e tocarmos pela Dutra até Jacareí, SP, onde então pegaríamos a Rodovia Dom Pedro I, donde sairíamos apenas para pegar a Anhangüera, que nos traria a Ribeirão Preto. Quase 100km mais longo, uns 90 Reais a mais de pedágios, mas para fazer este caminho eu não precisaria de GPS algum.

— Não, Gordo, vamos fazer o caminho que o GPS está sugerindo, assim a gente já conhece uns lugares novos.

Protestei educadamente uma, duas vezes. Mas como era a vez dele ao volante, e eu ando numa vibe de não arrumar briga com ninguém por nada, deixei-me convencer de que seria uma boa ideia seguir pelo interior de Minas Gerais.

Lembra que escrevi antes que não queria me ferrar sozinho? Pois então, não se tratava de mera metáfora, e vou tentar contar em poucas palavras por que viajar confiando apenas nos sistemas de mapas que eu tinha disponíveis (iGo 8, e Google Maps nos iPads e iPhones) foi uma péssima ideia.

Em primeiro lugar, lembro que nunca fui um bom aluno de geografia. Pior para mim, pois eu poderia ter lembrado que o Sul de Minas é região montanhosa, e que os 100km a menos são compensados pela necessidade de subir serras de até 1.500m de altitude para depois descer tudo de novo, ao chegar de volta no Estado de São Paulo.

Em segundo lugar, e mais preocupante do que minha ignorância em geografia, as cidades do interior não são corretamente mapeadas no iGo, e logo nos primeiros quilômetros da estrada que nos levaria de Lorena a Itajubá descobrimos que estávamos rodando “às cegas”: o programa do navegador simplesmente indicava que estaríamos fazendo um caminho qualquer atravessando matas e montanhas, subindo (muito) e descendo (pouco) morros e serras.

Eu estava indignado comigo mesmo, por não ter imposto minha vontade, e ficava ainda mais irritado quando meu amigo dizia “se eu soubesse que era tanta serra teria seguido pela Dutra”.

Por fim, acabamos chegando a Itajubá, e como não tínhamos ideia de por onde seguir, resolvemos confiar nas indicações do iGo. Já havíamos trocado os turnos, e quem estava ao volante era eu. Em vez de telefonar ao meu amigo e perguntar como sair da cidade, acabei confiando nas indicações do programa, e quando dei por mim estava no fim da cidade, não havia asfalto ou calçamento, o lugar parecia perigoso, e eu não fazia a menor ideia de onde estava.

Meu amigo queria dar meia volta, seguir todo o caminho de volta até Lorena, e encarar a Dutra de novo. “Nem dufendo”, respondi a ele. Daqui por diante sigo na intuição. Toquei em frente, até encontrar uma rodovia, onde ele me aconselhou pegar à esquerda, e eu — a despeito de ter o senso de orientação de um gato (na máquina de lavar) — resolvi seguir pela direita, e poucos quilômetros depois o iGo se achou e constatamos pelo mapa que eu tomara a decisão “certa”.

Daquele momento em diante resolvemos apostar na sinalização da estrada, e no Google Maps do iPhone para termos  ideia de onde estávamos e para onde seguir. Mesmo que o iGo dissesse que teríamos de fazer um determinado caminho, seguiríamos pelo que estivéssemos vendo no mapa.

E então descobrimos que o iGo 8 tem um problema sério para entender que a vontade do usuário tem de ser soberana com relação à rota que ele vier a calcular: houve momentos em que ríamos muito, quando o programa nos mandava dirigir muitos quilômetros apenas para fazer um retorno a fim de retomar a rota calculada, em vez de calcular uma rota alternativa que não implicasse retornar.

No fim, minha primeira passagem por Minas Gerais foi bem menos agradável do que eu gostaria ou do que poderia ter sido, se eu não estivesse tão preocupado em não errar o caminho. A culpa não é de nada ou ninguém a não ser minha, por não ter seguido pelo caminho no qual eu me sentia confortável.

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Pontos Fortes dos Programas de Navegação por GPS

Comparado ao que era viajar antes da popularização dos dispositivos móveis equipados com GPS e programas de navegação, a tarefa ficou muito mais simples, devido à possibilidade de termos uma indicação visual de onde estamos, a partir da localização por satélite.

Google Maps no iPhone

Google Maps no iPhone

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Pontros Fracos dos programas de Navegação por GPS

Os principais problemas dos programas de navegação por GPS são óbvios, haja vista o tamanho do planeta:

  • os mapas nunca são suficientemente atualizados;
  • em se tratando de cidades do interior, as atualizações são ainda mais demoradas — isso quando há algum mapa cadastrado;
  • as mudanças recentes de trânsito (como vias bloqueadas, desvios, alterações de sentido) não são consideradas, o que pode levar a cálculos de rota inadequados;
  • o Google Maps carece de navegação “3D” e/ou assistida por voz;
  • os programas não são inteligentes o suficiente para adaptar-se facilmente às preferências do usuário;
  • é necessário estar sempre munido de meios para carregar a bateria dos dispositivos, pois o circuito de GPS é um consumidor voraz de energia.

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Apesar dos pesares, foi bem bacana ter passado pela serra mineira, ter estado por lugares onde nunca estivera, e sei lá quando, e se, vou voltar a visitar. E para um aficionado por eletrônica e informática como eu, domar os aparelhos e programas de navegação por GPS tem um gostinho bom a mais: o que para alguém com uma personalidade diferente talvez pudesse ser um grave incômodo para mim foi uma oportunidade de diversão.

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A difícil arte de viajar guiado por computadores e GPS

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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