Três músicas para uma só mulher


É claro que as músicas não são minhas, e sim do grande Lupicínio Rodrigues, cantor e compositor brasileiro, gaúcho, portoalegrense, considerado o pai da “dor de cotovelo” pela natureza de suas composições.

Lupe é um dos gênios da MPB (biografia de Lupicínio Rodrigues — leia porque vale a pena), e sou fã de suas composições. Muita gente boa já regravou seus sucessos, vindo a fazer muito sucesso também. E três de suas músicas mais conhecidas foram, reza a lenda, compostas para uma mesma mulher. Aliás, parece que a lenda não é muito precisa, pois há quem diga que foram quatro e não três as músicas compostas para esta mulher, e as diferentes versões listam diferentes músicas também.

Lupicínio conheceu sua noiva, Inah, em Santa Maria, apaixonando-se perdidamente por ela. Porém, Inah não agüentou a vida de boêmio que Lupe levava, e no começo de 1939 deu um pé na bunda dele. Depois, então, ele conheceu Mercedes, “a carioca”, por quem passou a nutrir profundo afeto, e a quem deu uma casa para morar, como era costume os homens fazerem naquela época.

Nessa época ele tinha um amigo que estava enfrentando sérias dificuldades, e nos fundos da casa de Mercedes havia uma outra casa, que Lupe generosamente facultou ao amigo, para que este não ficasse desabrigado.

Um dia Lupicínio foi viajar, e o amigo ficando assim tão próximo da carioca não resistiu ao seus encantos, e deu um créu nela. É bem verdade que ela foi uma safada de dar para o cara, mas ele deveria ter pensado que estava morando de favor na casa provida pelo homem dela, que o tinha na conta de amigo. Talvez ele tenha até pensado isso, mas depois do créu, pois diz a lenda que ele estava angustiado para reencontrar Lupicínio e abrir seu coração, contando o que havia acontecido (além de comer a mulher do cara, ainda quis esfregar na cara que ele era corno — mas, enfim, quem sou eu para julgar?). Lupicínio então deu um pé na bunda de Mercedes, e mandou o “amigo” ir ao mundo — não necessariamente nessa ordem — e então compôs a primeira música para ela: Nervos de Aço.

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar este amor, meu senhor
Ao lado de um tipo qualquer
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá lo em um braço
Que nenhum pedaço do meu pode ser
Há pessoas com nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror
Eu só sinto é que quando eu a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor
(…)
Eu só sei é que quando eu a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor

Depois, segundo a versão que conheço da lenda, Mercedes teria se arrependido e pedido para voltar para Lupicínio, cujo amor profundo e verdadeiro ela reconhecia, o que propiciou que ele escrevesse, em resposta a seu pedido, a segunda canção para ela: Nunca.

Nunca
Nem que o mundo
Caia sobre mim
Nem se deus mandar
Nem mesmo assim
As pazes contigo farei

Nunca
Quando a gente perde a ilusão
Deve sepultar o coração
Como eu sepultei

Saudade,
Diga a essa moça, por favor
Como foi sincero o meu amor
Quanto eu a adorei tempos atrás

Saudade,
Não se esqueça também de dizer
Que é você que me faz adormecer
Para que eu viva em paz.

Mas é claro que o melhor ainda estaria por vir.

Contam, então, que alguns anos se passaram, e num certo carnaval, num baile a que Lupe não foi, seus amigos encontraram a carioca embriagada e mortificada. Quando estes contaram a Lupicínio que a haviam encontrado em tal situação ele compôs a terceira música para ela, que foi um enorme sucesso, e confesso que é a minha favorita do pouco que conheço da obra de Lupicínio: Vingança.

Eu gostei tanto,
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar,
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz,
Não lhe deixou falar.
Eu gostei tanto,
Tanto, quando me contaram
Que tive mesmo de fazer esforço
Para ninguém notar.
O remorso talvez seja a causa
Do seu desespero
Você deve estar bem consciente
Do que praticou,
Me fazer passar tanta vergonha
Com um companheiro
E a vergonha
É a herança maior que meu pai me deixou;
Mas, enquanto houver força em meu peito
Eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Para poder descansar

Bem, eu não sou jornalista, e não estou aqui escrevendo notícias: estou é contando uma história tal e qual dela eu lembro, e se alguém se dispuser a fazer uma pesquisa histórica há de constatar algumas incoerências e incorreções no meu texto. Mas lendas são assim mesmo: anacrônicas, e tendo um fio de aparente lógica já são suficientemente bem forjadas para agradar quem as ouve. E eu fiquei muito positivamente impressionado ao saber dessa versão que ora reproduzo tanto quanto a memória me permitiu.

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Três músicas para uma só mulher

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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