Tratamento Dentário


Precisei ir ao dentista. O tratamento seria longo, eu sabia. Mas nada poderia me preparar para o que viria em seguida.

Começou quando eu estava sentado naquela cadeira de tortura, fragilizado, aquele homem olhando para a minha intimidade e fazendo comentários que me faziam pensar coisas. Comentários do tipo:

— Olha só essa gengiva!

— Tem todos os sisos ainda? Que maravilha!

— Puxa, essa restauração é do tipo que não se vê mais, mas esse implante foi o Dentista Cego quem fez, só pode!

Antes que inventem de comentar bobagens já aviso: se dentes, gengivas, língua, mucosas em geral, não fossem parte da intimidade da pessoa, então não ficariam dentro de um lugar que se chama “cavidade oral”. Quando a natureza deu esse nome científico para a boca ela estava dando um sinal de como as coisas devem ser.

Enfim, primeira consulta, e eu tinha que deixar que o torturador extraísse um de meus dentes. Deixei.

Naquela cadeira de tortura, imaginando que a qualquer momento iniciariam os eletrochoques, humilhado e com a cavidade oral arreganhada, meu verdugo enfiou as duas mãos entre minhas bochechas, fazendo alguma coisa (que eu saberia em seguida o que era) em meus dentes. Ato contínuo afastou-se e amarrou a outra ponta do fio dental na porta do consultório. E fechou-a com a força de uma bomba (de chocolate).

Na boa: não defequei nas calças porque com o tamanho do susto todos os esfíncteres do organismo se fecham qual óvulo recém fecundado. E o tamanho da humilhação certamente seria proporcional ao tamanho da vingança que eu prepararia para o meu algoz.

A Vingança – Parte 1

Se na primeira consulta, quando o dentista fez a extração à base de adrenalina, eu estoicamente aguentei o sofrimento em silêncio, na segunda de nada reclamei, apenas atrasei o quanto pude o início do trabalho em si contando histórias das minhas viagens pelo Oriente Médio e pela África. Falando sério: nunca saí do Brasil (Ciudad del Este para buscar contrabando não conta).

Mas isso seria pouco, e então a cada cinco minutos ou menos eu pedia para cuspir.

A consulta que seria uma revisão (signifique isso o que for) levou cerca de umas duas horas. Coitada da moça que estava chorando de dor de dente, cuja consulta era logo depois da minha.

A Vingança – Parte 2

Mais alguns dias e uma nova consulta. Dessa vez ele se antecipou, com sua cara de psicopata, dizendo que não poderia parar para cuspir porque isso implicaria risco de mover os instrumentos e me ferir. Nada poderia ferir meu corpo mais do que meu orgulho já estava ferido.

Então passei a prestar atenção no que o homem fazia. Sempre que eu percebia que ele secava meus dentes com aquele compressor de ar dos infernos eu “instintivamente” passava a língua nos dentes outra vez.

O doutor começou a bufar de raiva e a dizer que assim não via nada. Eu fiquei cada vez mais satisfeito.

Terminada essa etapa da vingança falta preparar a próxima etapa.

A vingança – Parte 2½

Saí da consulta e fiquei um longo tempo na sala de espera, conversando com a secretária. Fiz amizade. Descobri o que pude sobre ela. Adicionei ao Feice. E então perguntei tudo o que eu queria saber para concretizar o próximo passo de minha vingança, que demoraria um tempo devido ao processo de solidificação dos implantes no osso. Ou sei lá o quê.

A vingança – Parte 3

Cheguei adiantado para a consulta, vesti meu melhor sorriso e fui avisando minha nova amiga que eu iria pregar uma peça no doutor. Disse a ela que iria fingir ânsia de vômito quando para tirar o molde da minha boca o psicopata a enchesse de alginato.

— Ai, foi bom você falar, porque o doutor é craque em fazer uma manobra para conter paciente com vômito ou ânsia. Mas aí quando ele for iniciar a manobra eu intervenho fingindo nervosismo, e impeço ele de botar a mão em você.

Não sei se ela teria sido tão solícita se soubesse que eu passei pelo menos duas semanas antes da consulta treinando para forçar o vômito sem precisar enfiar o dedo na goela. Ou se eu apenas tivesse contado que tinha almoçado uma farta feijoada com salada de repolho, e saído da mesa direto para o consultório. Nunca saberei.

Sentei na cadeira de execução que já estava com as baterias carregadas. Não vi os eletrodos mas sei que os capacitores de alta voltagem já estavam carregados, pois podia sentir no ar o cheiro do eletrochoque. Tudo bem que o cheiro de defumado poderia ser do meu próprio hálito, ou da minha camisa lambuzada com restos de toucinho e paio, mas prefiro pensar que fossem do condenado que passara por ali antes de mim.

Aguardei pacientemente o momento do molde, enquanto o Dr. Alan Feinstone se divertia com aquele espelhinho observando minhas mucosas.

— Mas isso aqui está lindo, nunca vi uma gengiva cicatrizar assim — dizia comprazendo-se em meu ultraje.

O momento chegou. Eu sem dentes (pelo menos não com todos), naquela cadeira elétrica moderna (não à toa que um dentista inventou a cadeira elétrica), e ele preparando um pote de alginato em que daria para enfiar os dois pés de um mafioso antes de jogá-lo para tomar banho no rio. Quando aspirei o cheiro de hortelã respirei fundo, e quando senti o geladinho da massa encostando no meu palato iniciei o ritual do vômito.

Minha cúmplice fingiu — mal, por sinal — que estava assustada, e aos gritos de “ai doutor” foi afastando o alucinado de mim. Eu forçando o vômito, emitindo sons guturais da maneira mais grotesca possível. Ele pedindo para a assistente deixá-lo acudir o paciente: “você deveria estar na recepção, e não aqui, me deixa trabalhar”.

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Honestamente, eu não sabia que feijoada nos primeiros vinte minutos de digestão era algo tão feio e nojento. Nem que o vômito fica tão mal cheiroso em contraste com os aromas dos medicamentos e colutórios de um consultório, de maneira geral. Ou que eu pudesse expelir uma quantidade tão grande de substâncias sem soltar aquela porcaria de molde dos dentes.

Aliás, foi nesse momento que vi o quanto a moça fingia mal a surpresa, pois quando ela presenciou acontecer o que ela achava que seria só uma representação pude perceber o que é desespero, surpresa e pânico num único grito de “ai meu Deus”.

A vingança – Parte 4

Não sei o que fizeram em seguida. Tão logo tirei as algemas e a camisa de força (talvez eu esteja exagerando) abandonei aquele chiqueiro à toda velocidade. Desci os vinte e sete andares de escada, para diminuir a probabilidade de alguém associar meu estado com os acontecimentos nojentos no consultório do carrasco. Corri o mais rápido que pude para longe dali, só parando dez metros depois quando estava prestes a ter um ataque cardíaco.

Agora estou tentando vender nos sites de leilão um molde lindo de alginato com o formato da minha boca, alguns instrumentos odontológicos cujos nomes desconheço. Tudo coisa pequena, afinal estavam parafusados na minha boca. Não se preocupe, não tem nem sinal de feijoada em nada, lavei tudo direitinho antes de fotografar e botar à venda.

E, claro, procurando um dentista que tope finalizar o serviço que esse aí começou. Afinal, não tive mais vontade de voltar lá depois que minha vingancinha acabou.

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Tratamento Dentário

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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