Tommy’s dead, baby, Tommy’s dead


Durou pouco. Aliás, não interessa o quanto durou ou pudesse ter durado, sempre seria pouco.

Sem mais delongas, o Tommy desencarnou na semana passada. Na quinta-feira, feriado, para ser mais exato. Pesquisei o nome da doença que o acometeu, mas não fui capaz de memorizar quando o veterinário falou. Só sei que foi dos rins, que são mesmo propensos a patologias nos gatos de raça, principalmente os exóticos.

Na verdade, agora que passou o impacto da perda, começo a perceber que o Tommy já apresentava sintomas de uma saúde mais frágil: ele não corria e pulava feito todos os gatos que conheci, e eu achava que era apenas o temperamento dócil dele. Mas ele caminhava com uma certa dificuldade — e eu achava lindo o jeitinho dele andar — que provavelmente já evidenciava alguma dor os rins, e eu, marinheiro de primeira viagem, não percebia.

Nos dois últimos dias dele julguei que ele estivesse estressado, pois eu estava com visita em casa, e passando muito menos tempo com ele.  Achei que ele estivesse deprimido, e por isso passasse mais tempo deitado. Tolo que fui. Se ao invés de fazer suposições eu tivesse levado o bicho mais cedo ao veterinário, é bem possível que ele tivesse podido se salvar.

De qualquer forma, foi muito tocante a maneira como o Tommy escolheu passar os últimos momentos encarnado: ele aguardou que eu chegasse em casa, e o tirasse do canto onde estava deitado; ajeitou-se no meu colo, da sua maneira favorita (com a cabeça no meu ombro, praticamente sentado sobre minha barriga), e chegou a ronronar durante mais de meia hora, apesar de enfraquecido. Com ele no colo telefonei ao veterinário, que pôs-se imediatamente em marcha. Mas não adiantou. Ele chegou uns três minutos depois que meu gatinho de estimação deu o último suspiro em meus braços, selando assim uma relação curta e intensa, com a qual aprendi um bocado de coisas, muitas das quais ainda não tenho sequer consciência.

Por exemplo, aprendi que eu sou capaz de amar. Assim mesmo, verbo intransitivo. Papo para outro post, talvez até em outro blog, mas o fato é que o Tommy me mostrou que eu sei dar meu coração, porque desde sempre eu notei que ele não era “vendável” (ou eu não o teria ganhado de presente), mas nem por isso ou por qualquer “defeito” que ele pudesse ter seria menos importante ou valioso para mim.

Aprendi que não é a duração de um evento que define sua importância, e sim a intensidade em que ele ocorre: o Tommy ficou comigo poucas semanas, mas foi meu companheiro no momento em que eu mais precisei dele, foi quem não se importou se eu estava de mau humor, se eu tinha escovado os dentes ou não, se tinha penteado o cabelo ou não, se tinha dinheiro ou não. Ele simplesmente estava ali, e se eu não queria dar colo, ele deitava a meus pés, mesmo. E não exigia nada em troca, eu é que me sentia na obrigação de prover água, ração e o sanitário dele.

Enfim, o Tommy foi na hora dele; não me sinto culpado pelo que aconteceu, porque tenho certeza de que tudo está sempre certo.

E quando chegar a hora, terei outro gato. Quem sabe, até mesmo um irmão do Tommy.

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Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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