“Terminou o carnaval, feliz ano novo”


“Terminou o carnaval, feliz ano novo.”

O bordão acima e suas incontáveis variações inundam o Orkut e os batepapos de gente que se diz “trabalhadora” honesta, que execra a folia de momo e a “vadiagem” que ela implica. Não é nada raro ouvirem-se comentários denegrindo a imagem de baianos, pernambucanos, e de outros povos agraciados com uma cultura de festejos populares que contrastam com a cultura workaholic de paulistas, gaúchos e outros.

Entretanto, é muita tacanhice qualificar o carnaval como festa de desocupados, celebração do ócio ou seja lá que nome se dê para reforçar qualquer caráter pejorativo da comemoração.

Em primeiro lugar, já seria suficiente motivo imaginar que as pessoas trabalham o ano inteiro em um ritmo muitas vezes selvagem, acumulando pressões, medos, inseguranças, competições. Quando chega o carnaval estes trabalhadores têm a possibilidade de fazer uma catarse destes sentimentos opressivos que acumulam, dançando, brincando, cantando na avenida, nos bailes, nos clubes, etc.

Em segundo lugar, mas não menos importante, o carnaval (e as micaretas, assim como todo festejo popular de maneira geral)movimenta a economia, implicando injeção de recursos no comércio de cidades pequenas e grandes, aumentando o faturamento das empresas locais, e por conseguinte a arrecadação dos municípios e estados.

Aliás, se considerarmos o alcance que tem o carnaval da Bahia, ou o de Olinda — para não falar no do Rio de Janeiro —, em termos de turismo nacional e internacional, fica ainda mais evidente a importância que estas festas têm para a economia das cidades. Não é de meu interesse levantar informações sobre a quantidade de dinheiro estrangeiro que o comércio destas cidades movimenta nesta época, mas certamente não é pouco.

E tem mais: cidades menores, principalmente praias mais distantes dos grandes centros, esperam ansiosamente pelo carnaval, pois é a época em que o comércio mais se aquece, quando as pessoas mais consomem, muitas vezes sendo essa a receita que muitas famílias têm para sobreviver com o mínimo de dignidade até o próximo ano.

Agora, o mais importante de tudo isso, e motivo pelo qual os ataques contra o carnaval são esdrúxulos, é que muita gente trabalha nestas festas, engordando o orçamento familiar. E nem falo só daqueles que são empregados com registro formal, e que ganham pelas horas extra que fazem, mas também e principalmente do trabalhador autônomo e informal, que cata latinhas para vender, ou do vendedor ambulante que refresca os foliões com bebida gelada, e o bolso com o lucro de seu suor, ou da baiana que vende mais acarajés para matar a fome de quem trabalhou o ano inteiro e agora está botando seus monstros para fora, pronto para encarar mais um ano de trabalho árduo.

Não gostar da festa de carnaval é direito de qualquer um. Criticar sem nem ao menos pensar naqueles que trabalham triplicado nestas ocasiões é burrice.

Mas, enfim, todo mundo tem o direito de ser burro se quiser, né?

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“Terminou o carnaval, feliz ano novo”

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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