Sobre Sonhar e Lutar pelos Sonhos

20 de janeiro de 2011 • Por Janio Sarmento, em Lifeblog

Tive a sorte de nascer numa família incrível, que tem de tudo. Pensei em listar as manifestações diversas, mas isso só causaria constrangimento (a mim e a meus parentes). Entretanto, devo dizer que a concentração de gente doida na minha família é algo singular, e agradeço diariamente por ter nascido neste seio.

Como toda família de moldes tradicionais, tive dois casais de avós, e os quatro já se foram. Tenho muita saudade dos quatro, muitas lembranças deles, mas nada se compara ao quão presente é a lembrança de meu avô materno, o Vovô Léo (de Leonardo).

Vovô Léo e eu tínhamos um vínculo um pouco mais especial, porque eu fui o primeiro neto (só lamento por vocês, que chegaram depois, a sorte é de quem tem). Além disso, ele era meu padrinho, e até os dois anos de idade eu morei com meus pais na mesma casa que ele.

Essas contingências familiares já teriam sido suficientes para eu nutrir amor e admiração extraordinários pelo meu Vovô. Acontece que ele era um cara tão fantástico, que mesmo que tivéssemos sido completos estranhos, tenho certeza de que seríamos grandes amigos no dia em que nos conhecêssemos.

Vovô Léo era alto, esguio, descendente direto de italianos. Dono de uma personalidade cativante, fazia amigos por onde passasse. Era vivido, conhecia gente para caramba, falastrão e muito inteligente. E quando faltava conhecimento sobre algum assunto, ele compensava com uma caricatura de prepotência que o tornava ainda mais engraçado.

Autodidata, meu avô foi caminhoneiro por toda a vida, e jamais envolveu-se num acidente. Mas nem por isso a vida lhe foi das mais fáceis, pois ele vivia às voltas com caminhões velhos, que demandavam muita manutenção. Mas longe de ser um sacrifício extremo como seria para mim essa situação, para ele era uma alegria poder enfurnar-se numa oficina e lambusar de graxa patente até o último fio de bigode, encroando os poros de óleo diesel e desengripante.

Creio que herdei dele o gosto pelas viagens (embora ele tenha sido um homem de raízes, enquanto eu ainda não sei se quero fincar as minhas em alguma querência), e a mania de trabalhar como forma de diversão.

Meu amigo, padrinho, meu eterno Vovô Léo, faleceu há algun anos, e foi muito cedo. Mesmo que ele tivesse vivido por mais duzentos anos, ainda assim seria cedo demais quando chegasse a sua hora.

Meu avô me ensinou muitas coisas, mas tem um episódio do qual vou lembrar até o túmulo.

Não sei direito que idade eu tinha, mas eu era bem jovem. Estava conversando com meu primo sobre alguns sonhos que tinha na época, e Vovô Léo se aproximou e ficou nos escutando delirar.

Quando tomou a palavra, Vovô Léo foi incisivo.

“Eu só posso dizer para vocês uma coisa: sonhem e lutem muitos pelos seus sonhos enquanto eles ainda são sonhos e fazem sentido. Quando o Vovô era novo sonhava em ter um Studebaker 1958, mas nunca conseguiu. Hoje, se o Vovô quiser ter uma dúzia dessas bostas, só se for para tacar gasolina e fazer uma fogueira imensa, pois eu quero é um Omega, e não uma bosta de um carro velho que nem ar condicionado não tem.”

É claro que tudo era uma questão de contexto, pois meu avô — que gostava de referir-se a si mesmo na terceira pessoa quando ia nos ensinar, dar sermão ou passar pito — sabia muito bem do valor de relíquia que um carro desses tinha e ainda tem. Mas às favas com as relíquias, falávamos era de realização de sonhos.

Todo dia eu lembro das palavras de meu Vovô, e incentivado por ele faço com que cada minuto meu seja consagrado a realizar os sonhos que tenho, e que não são poucos.

Mas, como falei no início, minha família é cheia de gente doida, e se eu identifico isso tão bem neles, fica claro que o mais doido de todos sou eu. E coerentes com o meu nível de doideira são os meus sonhos, que diferentemente do da maioria da população do planeta não implicam acumular riquezas, nem ostentar ou tentar ter uma casa maior que a do meu vizinho.

Meu maior sonho é ser livre e feliz, o tempo inteiro. E parece que tenho logrado um grande sucesso em realizá-lo, não é, Vô Léo?

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