Sobre o manual de redação de comentários do Estadão e os comentaristas mala

24 de abril de 2010 • Por Janio Sarmento, em Cultura, Internet, Opinião

Quem me conhece um pouco melhor sabe que eu gosto muito da Língua Portuguesa, talvez nem tanto de literatura, mas da forma que a linguagem pode tomar. Eventualmente aprecio brincar com as normas gramaticais, inventar neologismos e neografismos, mas prezo sempre pela correta utilização da pontuação e, exceto pelas inovações que são sempre pontuais (trocadilho intencional — ou não), da norma culta.

Quem me lê apenas pelo blog provavelmente não deve imaginar que eu possa mandar para um amigo blogueiro um e-mail com o assunto “sugestância de palta” (para quem não entendeu: sugestão de pauta). Ou que eu possa responder a uma pergunta de uma grande amiga num mensageiro instantâneo com a palavra “zatamânxi”, que vem a ser mais uma onomatopeia para “exatamente” pronunciado com bico de pato. Da mesma forma, eu me divirto muito com gente inteligente que sabe brincar com as palavras, subvertendo a Língua sem no entanto violentá-la, como é o caso do Marcus que usa o pronome na segunda pessoa (“tu”) e o verbo na terceira, por exemplo.

Atualização: a Mirian Bottan também é especialista em brincar com as palavras de uma maneira deliciosa.

Digo isso à guisa de introdução à explanação de meu ponto de vista, mas o que me motivou a escrever foi na verdade uma coletânea de links do sempre genial Alessandro Martins que incluía o texto O manual de redação do Estadão para seus leitores-comentaristas.

De maneira geral, o Estadão recomenda que seus comentaristas sejam coerentes e não escrevam merda nos comentários das matérias que lerem. Eu não condeno o jornal por isso, porque embora não seja muito atendido neste aspecto eu também quero este tipo de respeito por parte dos comentaristas.

Na verdade, queria poder ir além: gostaria de poder exigir que escrevessem de maneira clara, lógica, embora muito menos do que isso (que lessem e compreendessem o texto) já me deixasse deveras feliz.

Entretanto, criou-se uma “cultura” imbecil de que escrever feito um orangotango batendo nas teclas do computador é irado, e que é bonito fazer-se incompreendido pelos “não iniciados” na arte de ser tapado.

Boa parte de minha formação acadêmica se deu na Faculdade de Letras da Unisinos, de tal sorte que não sou um completo ignorante nas questões relacionadas à Língua. Ou seja, eu sei que muitos estudiosos consideram a língua (na mais ampla acepção do termo) como um organismo vivo em constante mutação.

A mutação que estes boçais tentam inserir na norma culta da Língua Portuguesa me parece equivalente às mutações que promoviam neurologistas do século passado que usavam lobotomia como eficaz tratamento para doenças mentais.

Sei também que os primeiros hominídeos usavam guinchos, grunhidos e gestos como forma primária de comunicação.

Da mesma forma, eu sei daquele princípio filosófico que diz que a evolução acontece em “ciclos fechados”, e que as histórias tendem a se repetir.

Mas eu juro que vou sentir vontade de espancar qualquer um que queira usar essa mulificação da linguagem escrita sob a desculpa que é um ciclo se fechando, e as pessoas que não se comunicarem feito primatas hominídeos primitivos serão os retardados. A não ser que eu comece a vê-los abrindo mão totalmente de usar computador e Internet, e indo morar nas árvores ou em cavernas, e jogando-se todos juntos em um vulcão em erupção feito lemingues seguindo o chefe.

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