Shit Happens


Quarta-feira, pouco antes das 13h. Percebi aquela típica sensação de quem precisa aliviar a bexiga e fui ao banheiro. Com o máximo conforto possível deixei a natureza agir, expurgando os restos indesejáveis do que processaram os rins.

Bicho devidamente seco, zíper fechado, um instante antes de apertar o botão da válvula de descarga, dei uma piscada e senti algo rolando pela face direita. Era minha lente de contato.

Rezei pedindo para que ela tivesse ficado presa na camiseta. Mas lente e camiseta têm o mesmo tom azulado, e sem enxergar direito, só com sorte para eu encontrar algo naquela falta de contraste.

Lamentei não ter ficado a lente na camiseta, e rezei pedindo para que ela estivesse no chão. Com o olho direito fechado, e temendo que a lente do esquerdo também caísse, esquadrinhei o chão, mas nada encontrei.

Rezei mais uma vez, pedindo para que a lente estivesse presa na louça do aparelho sanitário. Mas nem bem terminei a prece e vi que esta tampouco seria atendida: lá no meio daquele líquido amarelo que saíra das minhas entranhas, quase indo fazer o mesmo caminho de Nemo até o mar, estava minha lente. Foi até interessante observar que o amarelo da substância em fusão com a água somado ao azulado da lente de policarbonato faziam com que ela assumisse um tom verde esmeralda muito bonito.

Ponderei que se eu resolvesse mandar a lente procurar Nemo isso teria um custo de reposição imediato de R$ 150,00. Além disso, custar-me-ia uma tarde de trabalho, pois eu não conseguiria simplesmente ir em casa e pegar os óculos, demoraria a adaptar-me a eles novamente (tudo bem se eu os puser quando acordo, mas depois de meio dia usando lentes, os óculos são insuportáveis). E mais: não estou em época de ficar gastando, pelo menos não enquanto não terminar de pagar o laptop e finalizar a mudança.

Felizmente eu tive noções de métodos de tomada de decisão na faculdade, e não foi tão complicado assim decidir que o melhor a fazer seria arregaçar as mangas (literalmente) e meter a mão na massa (figuradamente). Mergulhei a mão inteira, até o punho, naquele depósito de líquido morno, rezando em agradecimento que pelo menos era meu mesmo. Com a ponta do dedo médio fiz uma pressão na lente, que por um terrível golpe de sorte caíra com a parte côncava para cima, e lentamente, para evitar retrabalho, fui resgatando a correção da minha miopia daquele universo de germes e H2O.

Sucesso! A lente estava resgatada, minha mão encharcada, a visão turva, e o pensamento confuso. Afinal de contas, este é o horário de pico no banheiro, e havia uma turba de marmanjos falando que “eles estão até bem no campeonato” e “nós não podemos continuar com aquele goleiro”. Depositei a lente sobre o suporte do papel higiênico, e saquei um punhado deste para secar a mão.

Dirigi-me à pia, depositei a lente num lugar seguro e lavei as mãos com bastante detergente. Durante esta tarefa tive de aturar um palhaço que insistia que minhas lentes de contato eram coloridas, e que meus olhos não eram azuis de verdade. Despejei detergente na concha da mão esquerda, e lavei a lente de contato, massageando-a vigorosamente na esperança de remover todos os germes.

Só que o detergente é azul, no mesmo tom da camiseta, que, já disse antes, é o mesmo azul da lente de contato. Para acabar com o suspense: eu a perdi novamente. Só que agora tive mais sorte, e ela apenas, de algum modo que escapa à minha compreensão, escorregara para o dorso da mão esquerda, junto com o detergente que escorria.

Terminei de limpar a lente, enxagüei-a com água abundante, e meti-a no olho novamente, antes que novos acidentes ocorressem.

Eu sei que normalmente um acontecimento desses seria registrado só nos Akashicos. Mas, sinceramente, a situação é patética demais para eu perder a chance de zoar! Teria sido sadicamente melhor se a vítima não fosse eu mesmo, mas o que vale é a diversão de estar “tirando onda”!

Update: Sei que poderia ser pior. Já pensou se eu usasse dentadura?

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Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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