Sanduíche de Preconceito


Porto Alegre tem uma empresa que vende cachorro-quente que é extremamente conhecida, tanto pela qualidade de seus produtos quanto pela localização, na calçada de uma conhecida escola da cidade. Eles têm site e tudo, mas não vou citar nomes nem URLs porque não quero ter de correr o risco de vir a me incomodar com nenhuma empresa no futuro.

Como vou mudar no sábado, e minha nova casa vai ser numa parte muito bacana do Centro, mas bastante longe do Cachorro do… Ops! Quase que eu digo!

Como minha casa nova vai ficar mais distante desta escola, vai ficar cada vez mais raro eu me dar ao prazer de comer um sanduíche deles, e por isso resolvi ir lá na noite passada.

Eu já estava saboreando meu cachorro-quente quando apareceu um morador de rua: maltrapilho, enrolado em um cobertor, sujo; queixava-se que queria comprar (eu disse comprar) um cachorro-quente e um refrigerante, mas os seguranças o impediram de ficar na fila.

O homem tinha o dinheiro para pagar pelo seu alimento, mas por estar maltrapilho foi enxotado da fila, que naquele momento, o horário de pico do “restaurante”, estava enorme e crescendo.

Quando os “seguranças” do “restaurante” me viram conversando com o sujeito, vieram “proteger-me” da sua “ameaça” (desculpem pelas aspas aparentemente excessivas). E eu, claro, recusei a oferta, pois era visível o constrangimento e a humilhação nos olhos dele.

Fiz o que qualquer ser humano digno de ostentar este título faria no meu lugar: fui para a fila no lugar do morador de rua. Comprei o sanduíche pelo qual minha camisa branquinha e meus sapatos de couro davam o direito de ficar numa fila. E, claro, contei a história para cada um dos que ali estavam, que se solidarizaram — ao menos da boca para fora — e contaram de outros abusos inversos, de gente arrumadinha que não respeitava a fila e passava à frente de todo mundo sem ser importunado por nenhum segurança ou outro funcionário.

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O nome de meu novo amigo, retratado na foto acima, tirada com o telefone celular sem iluminação adequada, é Carlos. Tem 25 anos, embora aparente 40, e vive na rua desde os 15, quando ele saiu de casa. Eu também saí de casa cedo, aos 14, mas não para virar morador de rua.

Carlos estava na rua fazia pouco tempo, pois até então estava internado na Santa Casa, sendo tratado por uma pneumonia. Portava consigo, além dos seis Reais e vinte centavos que custaria seu lanche, uma tesoura, com a qual ele fabrica peças de artesanato usando latinhas de refrigerante. Os alicates foram roubados antes de ele ir para o hospital, razão pela qual ele agora tem que limitar sua criatividade.

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A foto acima está espelhada porque foi feita com a câmera do Macbook, e eu não tenho um editor gráfico para desfazer o efeito. Nem precisa, tampouco. Já dá para ver que a maneira que ele encontrou de me agradecer por ter ficado na fila em seu lugar foi me presenteando com uma peça produzida por ele.

Enquanto Carlos saboreava o cachorro-quente (que encomendei no capricho em todos os sentidos) ele me contava sobre sua vida.

Perguntei a ele que expectativas ele tinha para a vida, e ele foi claro: “é só uma questão de tempo para eu sair das ruas, e estruturar minha vida”. Falou com tanta certeza que eu tive de perguntar como ele pretendia chegar a esse ponto, e ele então me disse olhando nos meus olhos, com um sorriso imenso: “eu tenho certeza que vai acontecer um milagre e eu vou melhorar de vida, Deus não permitiria que um filho dele passasse por tudo o que passo se não fosse com um propósito, e quando esse propósito estiver cumprido eu vou ter a minha compensação”.

Quando estava na fila, aguardando para comprar o sanduíche de Carlos, eu conversava com uma moça que estava na minha frente, que comentou que ninguém sabia também em que condições estaria o segurança que escorraçara o semelhante, e que no lugar dele talvez tivéssemos feito a mesma coisa (eu acho que teria, já que era para não deixar o cara na fila, furado a fila para que o mais rapidamente possível ele fosse embora dali); ela disse também que o segurança estava numa posição um pouco melhor do que a do mendigo.

Mas eu discordo: Carlos pode não ter roupas novas nem limpas, ou carro, ou um lugar para morar; mas certamente ele é o sujeito mais livre de todos os que estavam no “restaurante” esta noite. Tão livre que acredita em milagres, com a convicção inquebrantável de que em breve vai ser salvo por um.

Que assim seja!

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Sanduíche de Preconceito

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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