Saiba por que o Sarahah faz mais mal do que bem

“Sarahah” é um novo aplicativo modinha que permite o envio de mensagens anônimas para os participantes da rede. Saiba por que isso é nocivo.

30 de julho de 2017 • Por Janio Sarmento, em Opinião

“Sarahah” (que eu pronuncio Sara Rá) parece o nome de uma filha desconhecida da Baby com o Pepeu, mas é um aplicativo social (árabe, dizem) que não é novidade mas que caiu no gosto da brasileirada recentemente: permite que pessoas enviem anonimamente mensagens para os participantes da rede, sem nenhum tipo de censura ou resposta.

Desde o primeiro instante essa ideia me pareceu muito ruim, e vou tentar explicar nas linhas abaixo a razão do meu desconforto com o programa.

Os prints que aparecem no texto foram gentilmente cedidos por amigos que estão fazendo uso do aplicativo — uma vez que eu próprio não vou criar uma conta lá.

Se existe uma parte boa no Sarahah é permitir que pessoas mais tímidas possam extravasar um pouco algum sentimento que lhes vai no peito, algo que para ser exposto lhes exige uma coragem que não têm.

Vamos a um exemplo (também pode ser visto aqui):

Ao que parece, a pessoa autora deste comentário anônimo não se identifica com o estereótipo de “mulher perfeitinha”, razão pela qual se lhe aflora um certo medo de rejeição por parte de homens em geral, já que a maioria de nós tende a sentir-se ofendida quando uma pessoa fora do “padrão” demonstra algum interesse.

Mas a parte legal do Sarahah termina aí. Afinal, o único meio que as pessoas têm de responder de dar alguma resposta aos comentários recebidos é fazendo como o Alessandro fez: um print para tornar pública a mensagem e a esperança de que a pessoa a quem se destina leia a resposta.

Como todo tipo de ferramenta, contudo, esta também pode ser subvertida e em vez de mensagens construtivas ou comentários para quebrar o gelo, pode haver — e há — ofensas gratuitas, ameaças, ataques diversos.

Um dos argumentos de quem defende o uso do Sarahah é que não se importa com a  opinião alheia. Não sejamos hipócritas: se a pessoa realmente não se importasse com o que os outros pensam não usaria um aplicativo cuja função é coletar depoimentos de terceiros de forma anônima!

Outro argumento falacioso é que as pessoas vão usar o feedback recebido “sem as amarras da censura social” para refletir e tentar ser uma pessoa melhor. Melhor para quem ou o quê, cara pálida?

Acontece que as pessoas não veem umas às outras, apenas vemos nos outros projeções da nossa própria personalidade, de nossos medos, inseguranças, traumas, bem como de nossos valores, nossas virtudes, nossa força.

Assim, “tornar-se uma pessoa melhor” a partir de feedbacks recebidos por uma ferramenta que favorece o anonimato e a impessoalidade não me parece um bom plano de evolução. Muito melhor, em minha tanto quanto possível humilde opinião, é aprender a escutar de verdade o que as pessoas têm a dizer, com todos os filtros sociais que as impedem, até certo ponto, de cometer atrocidades umas com as outras.

O Sarahah também pode ser muito perigoso para pessoas com problemas de autoestima ou com histórico como vítima de bullying ou outro tipo de violência social. A crueldade dos ataques pode ser suficiente para desencadear quadros de depressão ou outros de maior ou menor relativa gravidade.

E para quem não é de “levar desaforo para casa” a frustração também pode ser enorme. Não poder responder um ataque à altura, não poder defender um ponto de vista, ter que calar ante uma visão injusta, esse tipo de coisa pode ser difícil de aturar.

Por fim, para resumir o textão, o uso desse apepê pode suscitar situações de paranoia e desconfiança. Como pode ter sido qualquer um que fez “aquele” comentário ferino, qualquer um que pode ter demonstrado interesse sobre seu outro significante, que pode ter feito “aquela” ameaça, relações que por qualquer motivo não estejam muito sólidas correm o risco de serem precocemente destruídas, desfeitas porque em vez de aprenderem a ser sinceras e dizer o que sentem olhando no olho umas das outras as pessoas preferiram confiar em um aplicativo que privilegia o oculto, as trevas — o que até agora só demonstrou fazer mal às pessoas, seja como indivíduos seja como coletividade.

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