Receita para um Mundo Melhor


Sexta-feira passada vivi um dos dias mais atípicos da minha vida, na condição de habitante de uma metrópole. Por onde quer que eu passasse as pessoas sorriam, como se eu tivesse um dom mágico de fazê-las esquecer as tristezas, dificuldades e preocupações.

Na verdade, eu notei essa mudança na energia das pessoas na hora do almoço, na fila do bifê (odeio buffet, a não ser que se pronuncie bâfeti). As pessoas olhavam para mim e sorriam, algumas quase riam abertamente. Outras havia que apenas se contagiavam com a alegria, mas, tímidas, disfarçavam o sentimento, baixando o olhar ou escondendo o rosto.

Ao voltar para o trabalho notei que as pessoas na rua também viam a mesma coisa que o pessoal do restaurante em mim; lembrei que na ida para o almoço eu já havia notado algo assim, mas ficara até incomodado. Agora novamente as pessoas estavam olhando para mim e ficando alegres.

No fim da tarde enfiei os fones nos ouvidos para ouvir rádio, como sempre faço, e fui esperar o ônibus. Na parada, as pessoas que aguardavam também começaram a sorrir após olhar para mim, e eu experimentando uma sensação indescritível de conexão com algo muito maior que eu, muito mais lindo, sentindo um orgulho imenso por ter conseguido sem nem saber como, tornar-me instrumento para melhorar a vida das pessoas.

No ônibus, então, foi a mesma coisa. As pessoas passavam pela catraca, me viam ali, sentadinho com os fones nos ouvidos feito um buda geek, e não disfarçavam o sorriso. Devo ter melhorado o dia de pelo menos umas quarenta pessoas que passaram por mim. Algumas até pareciam dizer alguma coisa — agradecimentos, supus — mas não tive como confirmar porque estava ouvindo rádio, e esses fones de ouvido da Sony são mesmo ótimos! Também, minha modéstia me impediria de ouvir agradecimentos por algo que eu estava fazendo sem esforço algum; poder ver o sorriso no rosto das pessoas já era gratificante o suficiente para mim.

No caminho entre minha parada e minha casa, a cena, com a qual já estava acostumado, repetiu-se. As pessoas na rua olhavam e sorriam, eu acreditando que quem visse Porto Alegre do alto poderia ver a luz dos sorrisos que se abriram por onde eu passasse.

Em casa, eu quis ter a mesma experiência mística de todas as pessoas que cruzaram por mim durante o dia, e fui para a frente do espelho escovar os dentes e tentar ver essa alegria em mim próprio, e finalmente entendi: pela manhã eu pegara um lápis emprestado com uma colega, daqueles lápis de guria, coloridos, cheios de frufrus, e após usá-lo “guardei-o” atrás da orelha, para entregar quando voltasse para a sala, e esqueci do dito cujo ali. Então, as pessoas olhavam e se perguntavam “onde será que o lápis arrumou esse gordo para levá-lo a passear?”.

Eu mereço!

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Receita para um Mundo Melhor

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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