A quase impossibilidade da Comunicação Não Violenta

A prática da Comunicação Não Violenta — CNV — pode ser uma das mais eficientes ferramentas de transformação das relações interpessoais e por consequência da sociedade. Mas proporcional à sua importância é a dificuldade de colocá-la em ação.

22 de Janeiro de 2017 • Por Janio Sarmento, em Crônicas

Já falei aqui no blog sobre a diferença entre quem se é e quem se quer ser, e sobre minha decisão de sair do jogo de acusar. Nas duas ocasiões falei sobre mudanças que almejo para mim e sobre a ferramenta da Comunicação Não Violenta — CNV doravante — para transformar as relações interpessoais. Como é fácil de deduzir eu não tenho tido lá muito sucesso nesta missão que eu mesmo me dei, em função justamente da excessiva identificação que tenho — ou temos todos — com o lado sombrio do ser.

Claro que ninguém diz que a CNV vai ser algo fácil de aprender e praticar. Eu que tolamente subestimei a dificuldade implícita de ouvir o outro para compreender e não para responder. Eu que achei que seria fácil o processo de entender o meu próprio sentimento em cada situação para abrir mão do julgamento e realmente empatizar com o que a outra pessoa está comunicando além das palavras.

A prática da CNV requer uma desidentificação com a parte de nós que se sente injustiçada, ameaçada, diminuída por causa do que o outro diz ou faz; ou melhor, com o que a gente pensa que o outro diz ou faz, porque na maioria das vezes apenas reagimos automaticamente, reproduzindo condicionamentos sobre os quais, claro, nem ao menos pensamos.

Então, a primeira dificuldade da CNV consiste na necessidade de a pessoa conhecer-se, e mais do que isto estar consciente de quem é.

A segunda dificuldade da prática da Comunicação Não Violenta, pelo menos no meu caso, vem de uma certa soberba, de uma prepotência: a pessoa (eu) se sente enfadada por ter que “responsabilizar-se pelas consciências do outro”. Entre aspas porque na verdade é apenas um outro reflexo dos condicionamentos de que falei acima: para não ter que olhar para minhas próprias imperfeições não quero ser confrontado com o reflexo delas projetado sobre o outro.

É como se uma “voz” ficasse dizendo: “por que diabos tenho que decifrar o que este infeliz está sentindo se ele mesmo não age como se quisesse saber?”. E aí já está um julgamento, uma avaliação sobre o que pode ser que o outro esteja fazendo ou não.

Ainda pior é quando a pessoa — eu de novo, claro — começa a perceber que os interlocutores em geral, mergulhados em sua inconsciência de si mesmos, estão o tempo todo tentando responsabilizar algo ou alguém fora de si pelo que consideram seus fracassos, sejam eles em que níveis ou de que tamanhos forem. Exemplos:

  • Bati o carro porque o celular tocou na hora e fiquei nervoso.
  • Entrei na rua errada porque você falou comigo.
  • Esqueci de pagar os boletos pelo esgotamento de ter que prover um lar.
  • Fui mal na prova porque minha irmã estava vendo novela e o barulho atrapalhou meu estudo.

Resolvi ficar só nos exemplos mais corriqueiros, mais “bobos”, porque todo mundo sabe a história de alguma mãe que responsabiliza o casamento e os filhos por não ter seguido a carreira que desejava, ou de algum filho que culpa os pais por nunca ter viajado o mundo e virado astronauta.

Essa percepção de que o outro está agindo inconsciente dentro do propósito de desculpar-se de tudo, repassando a responsabilidade para alguém — eu, no caso — leva a um enfado, uma rabugice que esconde um sentimento real que a pessoa — eu, outra vez — prefere não ver.

Assim, a CNV é uma ferramenta que pode mudar o mundo. E como boa ferramenta para esse propósito ela requer que a pessoa primeiro melhore a si mesma, para só depois poder fazer algo pelo semelhante. Mas é difícil. E é possível.

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