Quanto vale a mão de obra?


Recebi por e-mail uma apresentação em Power Point (não suporto PPSs) de uma leitora dos meus blogs. Pessoa séria, inteligente, conhecedora das coisas e coisas da vida. Não sei se é real ou não, mas tudo leva a crer que sim. Trata-se de um apanhado de fotos mostrando as lojas extremamente chiques que vendem sapatos de uma determinada grife, em contraponto às condições desumanas de trabalho a que os operários são submetidos. No texto que acompanhava o arquivo falavam em jornadas de 16h diárias, em troca de comida, sendo que ao terminar a jornada de trabalho os trabalhadores puxam colchões e dormem por ali mesmo, para no outro dia começarem bem cedo e sem perda de tempo a produzir novamente.

A seqüência de slides tem um tom meio “socialista” para meu gosto, embora eu não esteja desacreditando nem nas condições de trabalho que estão ali registradas em fotografia, nem na descrição das agruras que os trabalhadores passam. Porque o que eu quero é justamente contar duas historinhas de vida, que de certa forma têm a ver com essas fotos.

Antes de mais nada, a apresentação — que se deu tudo certo estará disponível no próximo parágrafo.

Caso não tenha aparecido nada ali acima (o que imagino que aconteça para quem lê pelos fides), os slides também podem ser acessados por este link.

A primeira história que quero contar é de um cara, no finzinho dos anos 60 e início dos 70, que saiu de casa no fiofó do mundo (interior de Taquara), com pouco estudo, nenhum dinheiro, nenhum networking, e foi para Porto Alegre com um único patrimônio: a certeza de que era muito maior que a comunidade rural em que vivia.

Aos vinte e poucos anos esse sujeito estanhou a cara¹, pôs as sinapses para funcionar e foi pedir emprego em uma fábrica de artefatos plásticos. Mais do que isso: pediu abrigo, e o dono da fábrica consentiu, embora a razão dissesse para fazer o contrário absoluto disso, que ele dormisse num quartinho nos fundos da fábrica.

Esse cara é meu pai, que começou sua vida vivendo em uma situação que seus colegas certamente considerariam desumanas, mas que comparadas às demais alternativas que ele tinha eram o que poderíamos chamar de “um porto seguro”.

Menos de vinte anos depois desse episódio, acontece uma outra história semelhante. Um jovem sai de casa aos 14 anos de idade (para nunca mais depender dos pais), e aos 18 se vê sem ter onde morar, sem emprego, sem dinheiro, apenas com a fama de bom aluno e conhecimentos de eletrônica. Esse cara aceita trabalhar numa oficina de eletrônica especializada em automação bancária, em troca de um salário mínimo, sem carteira assinada, e de almoço e de um quarto para dormir, sendo que para ter direito ao almoço ele tem de trabalhar como garçom no restaurante (cujo ecônomo é o mesmo dono da oficina). Dezenas de pessoas dizem a este cara que ele está sendo explorado, que ele trabalha uma jornada tripla (na oficina, no restaurante e à noite tomando conta do prédio da oficina.

Só que esse cara tinha e tem uma imensa gratidão àquele senhor que estendeu a mão e facultou abrigo e alimento num momento de extrema necessidade, e nem por nada nesse mundo trairia quem — praticamente — o tirou das ruas, ou da possibilidade de viver nelas.

Esse cara sou eu.

Talvez a história de meu pai e a minha sejam exceção, e realmente estes trabalhadores estejam sendo obrigados, forçados a trabalhar dessa maneira, e que diferente dos Sarmentos aqui eles não venham a construir oportunidades para irem melhorando cada vez mais sua vida.

Mas isso aqui é o Blogue do Janio, e eu só posso (só tenho a possibilidade de) falar sobre o que eu sinto, percebo ou experimento. Qualquer coisa fora disso não seria real.

___
(1) “Estanhar a cara” é uma expressão tipicamente gaúcha que significa fingir que não tem nenhuma timidez, bancar o totalmente cara de pau mesmo sem sê-lo.

Compartilhe

Avalie este conteúdo!

Avaliação média: 4.5
Total de Votos: 13
Quanto vale a mão de obra?

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

Comente!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.