Por que o software livre é mal visto


Noite passada cheguei na faculdade e assim como todos os meus demais colegas fui surpreendido pela notícia de que haveria uma palestra no auditório, com o Carlos Morimoto, acerca do Kurumin e a sua utilização como alternativa ao software comercial para computadores desktop.

Primeira decepção: a palestra começou com 20min de atraso.

Segunda decepção: o Morimoto não estava, e no lugar estava o seu escudeiro, que parece ser muito respeitado pela comunidade. Mas não era o Morimoto, que foi a figura anunciada.

Terceira decepção: a palestra não era para falar sobre software livre como alternativa ao software proprietário, e sim para promover os cursos e livros do Guia do Hardware.

Quarta decepção: não havia planejamento algum na palestra, e o jovem que estava apresentando o assunto parecia estar num barzinho com os amigos. Isso não só pelo linguajar cheio de vícios de linguagem (de cada cinco palavras, duas eram “sei lá”), mas pelos “ãããããã… tipo…” que antecediam cada frase, que davam a impressão dele estar para lá de Marrakesh.

Quinta decepção: ao apresentar-se, o palestrante poderia ter se limitado a dizer o seu nome, dar boa noite, e entrar de sola no assunto. Ao invés disso ele tentou parecer importante dizendo que tinha trabalhado na Procempa (por poucos meses), que havia participado de uns dois projetos (todos fracassados) e que agora estava lecionando nos cursos do Morimoto.

Sem entrar no mérito de quem foi culpado pelo quê no fracasso da palestra (creio que a culpa pela desorganização tenha sido em grande parte da faculdade, via Diretório Acadêmico), o fato de o cara tentar vender um peixe em nome do software livre sem estar preparado contou muito negativamente. De todas as pessoas com quem conversei, todas disseram que não vão se arriscar a fazer curso com eles, afinal o cara que representava o Morimoto, pai do Kurumin, não sabia para que servia mais da metade dos programas que ele estava demonstrando, não sabia se o Sane suporta ou não dispositivos SCSI.

Pior: a impressão que ficou na plateia leiga (de mais de duzentas pessoas, só dois além de mim são usuários diários de Linux) é que a única coisa que o Kurumin faz que o Windows não faz é ter um programa para captura de tela (o cara gastou uns 15 minutos mostrando as maravilhas do Ksnapshot).

Não desmereço o conhecimento e a competência do rapaz (tenho certeza que o Vaz vai me dizer o nome dele, quando estiver contestando o que estou dizendo), mas a maneira de ele expressar esse conhecimento foi ineficiente, para dizer o mínimo. Quem se dispõe a fazer uma palestra tem que no mínimo saber usar o microfone ele não sabia e falar com clareza, tanto ao nível da dicção quanto, e principalmente, no das ideias.

O foco anunciado da palestra era a utilização do Linux e suas ferramentas como software básico para automação de escritórios. O máximo que ele fez foi abrir e fechar o editor de textos do KuruminOffice (OpenOffice.org) e dizer: 90% dos recursos do Word não são usados; nesse programa vocês também têm 90% de recursos para não usar. Se ele queria ser engraçado, certamente não conseguiu, no máximo se tornou patético.

O infeliz também disse umas barbaridades como o Kwrite não serve para nada, e teve de aturar a pergunta “então o que ele faz aí?” bem quietinho. E para falar de aplicativos de escritório não havia um único texto formatado no Writer, não havia gráficos de encher os olhos na planilha de cálculo, não havia sequer uma apresentação bonita. Não se falou em momento algum em softwares para banco de dados, ou em como seria possível usar o KuruminOffice como cliente do MySQL, por exemplo, para facilitar a geração de gráficos e relatórios.

Juro que se fosse para eu fazer uma palestra sobre um assunto dessa magnitude, dessa riqueza, no mínimo prepararia uns audiovisuais, e estaria preparado para as perguntas da plateia, e jamais me meteria a dar demonstrações de softwares irrelevantes para o foco da palestra, e que ainda por cima não fossem de meu conhecimento.

Longe de mim ser apenas o crítico que só critica e nada faz para colaborar. Muita gente já passou a utilizar Linux, e outras peças de software livre, por minha influência, inclusive leitores do Blogue. Mas que se tenham critérios. Que se tenha coerência. E que não pensemos nós, os defensores do software livre, que é natural para um cara que usa Windows desde os idos do 3.11 apaixonar-se pelo Kurumin só porque roda direto do CD e porque tem o Ksnapshot instalado. Se vamos brigar, que entremos na batalha para ganhar. Se acreditamos no software livre, que encaremos a responsabilidade de assumir um lugar de destaque (como estar na frente de uma plateia de 200 tecnólogos), para que não saiamos de lá com a pecha de nerds antissociais que nem dizer o que pensam não sabem.

Finalizando: eu deveria estar feliz, já que depois da palestra do moço aquele (cujo nome eu realmente esqueci) pelo menos seis colegas vieram me perguntar se eu daria aula particular de Linux para eles. Justo eu, que comecei ontem e nunca me aprofundei no estudo do Linux, que nunca nem pensei em ter minha própria distro, e que compro meu uísque e sustento minhas mulheres com dinheiro que ganho trabalhando com Windows, programando em VB e C#.

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Por que o software livre é mal visto

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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