Perdi meu Amigo

Meu amigo morreu faz alguns dias, mas acho que eu já o tinha perdido há bem mais tempo.


Faz alguns dias que meu amigo morreu. E escolho de propósito o verbo “morrer” em vez de qualquer sinônimo — desencarnar, falecer, subir, fazer a passagem — porque me parece muito tolo esse tabu que temos para falar de morte, que é algo tão natural quanto o próprio nascimento.

Tergiversações à parte, meu amigo morreu, e eu nunca mais vou vê-lo, provavelmente. Mesmo com minhas crenças sobre a eternidade da alma, quando (ou se) eu o vir novamente provavelmente não saberemos quem um dia fomos, e a amizade que tivemos.

Porém, acho que eu perdi meu amigo bem antes de ele morrer.

Acho que comecei a perder meu amigo quando descobri que a despeito do que dizia acreditar e dos valores que dizia cultivar, ele andava armado, com pelo menos uma pistola ilegal (mas sei que eram mais armas).

Ou talvez tenha sido no dia em que ao comentar com ele que uma amiga minha (não era de sua relação, mas não faz a menor diferença) estava progredindo rapidamente em sua carreira, ele comentou: “deve estar dando pro cara certo” — como se uma mulher só pudesse sobressair-se pelo poder da sedução, jamais pela competência.

Quem sabe eu o tenha perdido no dia que ouvi meu amigo dizendo, pela primeira vez, que os “viados” queriam ser uma “super raça”, com direitos e privilégios que os homens “normais” jamais teriam.

Desconfio também que eu o tenha perdido quando ele espumou de raiva quando eu disse a ele que não acreditava que um homem velho, culto e instruído realmente acreditasse em mamadeira de piroca.

Pode ter sido quando ele achou que meu ouvido era penico, e gastou horas (por mais de uma vez) tentando me convencer que o Brasil deixou de prestar depois que os militares saíram do poder.

Se bem que também acho que eu o perdi quando pedi encarecidamente que parasse de me enviar notícias falsas pelo WhatsApp, enaltecendo o candidato que acabou sendo eleito democraticamente a despeito de o quão sujo tenha sido o processo eleitoral, mas só depois de eu telefonar para “botar os cachorros” que ele parou.

Ou talvez ele tenha me perdido quando eu não consegui tolerar que toda sua vida o tivesse levado a ser quem ele era; quando não consegui entender que se eu tivesse tido as mesmas experiências que ele talvez fosse até mais amargo e reacionário; quando não consegui, enfim, ser o amigo incondicional que eu deveria ter sido.

Mas nada disso muda o fato de que perdi meu amigo.

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Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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