Os “segredos” do mercado de trabalho


O presente texto foi escrito em julho de 2008, mas permanece bastante atual, razão pela qual estou republicando-o agora.

Porto Alegre

Vista de Porto Alegre

Felizmente para mim já não preciso mais dobrar-me às regras do mercado de trabalho como aqueles que levam a vida trabalhando de empregados, em uma estrutura mais convencional. Isso não quer dizer que eu viva de papo para o ar, que não faça mais coisas que me desagradam (ter de explicar a certos clientes por que eles não servem para ser meus clientes, por exemplo) ou que trabalhe pouco (pelo contrário, minha jornada diária não baixa de 14h e não raro chega a 16h, inclusive aos finais de semana). Mas estou muito mais feliz agora, pois tenho dentro de meu coração a certeza de que estou fazendo o que quero, na profissão que é a certa para mim.

Essa reflexão toda começou há dois dias, quando uma amiga com quem já trabalhei em anos passados me procurou para oferecer trabalho. Ela precisa de uma pessoa que programe em Java e que tenha conhecimentos de Oracle. Não entrei em detalhes acerca da vaga porque não me interessa realmente, mas quem quiser pode escrever diretamente para <daniela AT 3ia DOT com DOT br> (se você não entendeu, certamente a vaga não é para você). O que sei é que é uma empresa legal, com muitas oportunidades, e na época que eu trabalhava lá eu ganhava bem, e em dois anos ganhei cerca de seis aumentos de salário. Ah, sim, a vaga é para Porto Alegre.

Essa oferta da Dani veio junto com outras que não vou citar aqui, direcionadas para mim ou não. Foi o primeiro dos três “segredos” do mercado de trabalho que identifiquei neste momento: quando em algum lugar abre uma vaga, é bem possível que haja uma porção de vagas abrindo em um monte de lugares.

Em parte esse efeito se dá porque há muitas consultorias especializadas em “outsourcing”, ou terceirização de serviços. Estas têm os contatos, os clientes, que são sempre os mesmos, e quando surge um projeto novo saem todas desesperadas tentando preencher as lacunas abertas.

Mas neste momento não é bem isso, porque assim como tem minha amiga precisando de programador Java, tenho visto muitas vagas para programadores PHP, programadores C, programadores .NET, webdesigners e analistas de rede e suporte, em todas as capitais do País.

Da observação desse movimento surgiu-me a noção do segundo “segredo” do mercado de trabalho: as empresas relutam em dizer o quanto podem ou querem pagar. Que saco! Todas dizem em seus anúncios que é para mandar curricula com pretensão salarial. Isso é uma tremenda de uma sacanagem com os possíveis candidatos, em dois aspectos.

Primeiro, que a empresa ao dizer o quanto pode pagar ao futuro funcionário já estaria evitando que candidatos com pretensão acima daquele nível perdessem seu tempo candidatando-se a uma seleção para a qual não vão nem entrar (e poupariam tempo dos recrutadores, também, que receberiam inscrições apenas de gente disposta a trabalhar pelo dinheiro que a empresa pode pagar).

Segundo, que a impressão que dá é que as empresas fazem isso justamente para tentar fisgar profissionais de excelente nível que mereceriam ganhar — digamos — quatro mil reais mensais em uma situação crítica a ponto de coagi-los a aceitar um emprego de 20% deste valor.

Ou talvez haja algum outro motivo que eu jamais vou saber qual é.

No passado eu já recrutei pessoas para trabalhar. Um de meus grandes desgostos era o fato de a empresa se recusar a dizer o quanto poderia pagar aos novos empregados. Muitas vezes tive de dispensar candidatos fortíssimos porque eles queriam — e mereciam — ganhar o triplo do que a empresa dispunha para a vaga em específico.

O terceiro “segredo” (talvez eu devesse mudar para “mistério”) do mercado de trabalho é o fato de que não há hoje em dia quem incentive talentos individuais a desenvolverem-se individualmente. Explico.

Fui ao shopping center jantar hoje, e dei uma passada numa livraria. Estive dando uma olhada nos títulos disponíveis nas prateleiras de relacionados a gestão empresarial e até mesmo de autoajuda. Fiquei impressionado porque todos os livros que estão à venda sugerem que o único caminho possível para ser bem sucedido profissionalmente é dentro de uma grande empresa, trabalhando de empregado ou — o supra-sumo desta visão — tornando-se gerente, chefe, líder ou seja lá que termo se queira usar.

O único livro que encontrei que não tinha essa abordagem diretamente era a história de um cara que era viciado em trabalho e num belo momento percebeu que estava desperdiçando sua vida. Em resumo, ele parou de trabalhar 16h diárias no seu emprego para trabalhar 8h. Ainda no seu emprego.

Mesmo os livros — e eles são apenas uma amostra do mercado de pedagogia empresarial — destinados aos empresários e empreendedores têm uma adaptação desse ponto de vista como foco: o empreendedor de sucesso será o cara que tiver uma empresa com um monte de gente trabalhando e recebendo salário.

Ora, eu me senti completamente na contramão!

Eu tenho uma empresa, uma pessoa jurídica que embasa legalmente minhas atividades comerciais; emito nota fiscal, recolho impostos, pago honorário de contador, e faço tudo que a legislação requer. Mas nem por isso eu sou igual a nenhum desses tipos acima. Eu jamais trabalharia 16h diárias em um emprego (mas faço isso com prazer na minha empresa), e enquanto eu puder trabalhar sozinho, sem funcionários, eu vou fazê-lo. Já sei até como farei isso.

Aliás, conheço um monte de gente que trabalha sozinho e é muito bem sucedido. São milhares de profissionais liberais que atendem em domicílio, trabalham de casa pela Internet, ou fazem sei lá eu o quê. Por que essa gente é desconsiderada quando se fala de sucesso e realização profissional?

Ou, então, vai ver que eu estou desatualizado, já que trabalhando o tanto que eu trabalho não sobra mais tempo para ver e ouvir “gurus” ditando receitas de como ser feliz.


Imagem via Wikipedia

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Os “segredos” do mercado de trabalho

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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