Os gaúchos e o chorume


Uma coisa que nunca entendi é o orgulho que as pessoas sentem por terem nascido num determinado lugar. Orgulho de ser brasileiro, de ser gaúcho (sou os dois), ou de ser de qualquer parte do mundo, são extremamente absurdos para mim, pois a pessoa não precisa se esforçar nada para nascer onde nasce. Só tem que seguir o instinto e se deixar sair das entranhas da mãe.

Orgulho a gente tem por concluir um curso superior, quando não se tem dinheiro nem para comer direito; orgulho se tem por tocar e manter uma empresa por dez, quinze anos, apesar da carga tributária escorchante a que somos submetidos; orgulho é válido quando se ajudam pessoas a viver melhor, a evoluir, a serem pessoas melhores — de acordo com o que elas acham que é ser melhor.

Esse ufanismo besta é onipresente, mas no Rio Grande do Sul, infelizmente, é uma nódoa que parece ser impossível de se limpar. A mania que a gauchada tem de fechar os olhos para seus problemas e defeitos para defender o Estado como se fosse o lugar mais perfeito do mundo chega a causar asco em quem conseguiu levantar a cabeça um milímetro acima do nível da tacanhice lá reinante.

No dia 24 de junho de 2015 faleceram dois artistas: Cristiano Araújo, 26 anos, cantor de sertanejo universitário; e Nico Fagundes, 81 anos, tradicionalista, poeta, escritor, advogado, musicista, e mais um monte de títulos que nem saberia eu listar.

Em ambos os casos, deixaram familiares, fãs, companheiros de trabalho, amigos, e toda sorte de gente que sofre com suas partidas prematuras (toda partida é prematura quando só o que sabemos é o que o corpo vê e sente).

A respeito da cobertura da imprensa nacional sobre o falecimento de cada um dos artistas, um babaca qualquer (recuso-me a dar audiência para gente escrota nesse nível) escreveu o seguinte texto, que vem sendo compartilhado até a náusea pela gauchada (citação literal, não mudei uma vírgula para piorar nem melhorar nada):

No brasil da cultura da bunda, morreram no mesmo dia dois artistas, um deles formado em direito, pós-graduado em História do Rio Grande do Sul e mestre em Antropologia Social, reconhecido na cultura gaúcha, premiado diversas vezes como poeta, novelista, compositor, autor e ator de teatro, televisão e cinema. É respeitado como autoridade em folclore gaúcho, história do Rio Grande do Sul, antropologia, religiões afro-gaúchas, indumentária do Rio Grande, cozinha gauchesca e danças folclóricas. Apresentou por mais de 30 anos o programa Galpão Crioulo, foi o autor de O Canto Alegretense, que é talvez a canção mais conhecida em todo o sul do brasil.
O outro ficou conhecido no brasil inteiro por fazer um sucesso absurdo com uma música cujos versos eram bará bará bará, berê berê berê. No brasil da cultura da bunda o primeiro não teve seu nome citado em nenhum grande noticiário da TV brasileira, o falecimento do segundo apareceu no Bom Dia Brasil, na Ana Maria Braga, na Fatima Bernardes, no Jornal Hoje, no Jornal Nacional, no Jornal da Globo, nos jornais da Record, da Band e na Globo News.
Mas no brasil da cultura da bunda é assim mesmo, a cultura de verdade é jogada de lado, o que vale mesmo é a cultura da bunda, da bagunça, da promiscuidade e da pouca vergonha.

Vamos começar dizendo que um Estado (leia-se: as pessoas que moram lá) que quer ser melhor que os outros teria que ser mais inteligente do que eleger Sartori para governador. E não, eu não me incluo nessa burrice porque nem votar no RS eu voto mais.

Podemos continuar dizendo que é leviano com a memória do Nico Fagundes querer compará-lo ao jovem Cristiano. Nem é porque o moço fez sucesso cantando “bará bará bará” mas sim porque os dois artistas estavam em situações extremamente diferentes em suas carreiras. Os momentos na História em que cada um começou sua carreira são totalmente distintos.

E, claro, o Nico escolheu (se é que é uma questão de escolha) o caminho da Tradição e do conservadorismo, e está tudo bem. Já o moço dos versos pobres e das melodias fáceis escolheu outro caminho, que pode não me agradar — dica: não agrada mesmo — ou a você, mas acredite: está tudo bem também.

Outro motivo pelo qual este tipo de manifestação é uma desonra à memória do Fagundes que se foi é que ele nunca precisou desmerecer ninguém para reafirmar sua importância e seu sucesso. Se o fez, desconheço, mas terá feito sem precisar.

Gauchada, vocês podem ser muito melhores do que isso. Vocês podem, e devem, chorar a morte de seus ícones. Mas não precisam, não devem, ninguém deve, atacar a memória de outros artistas ou desmerecê-los em seu trabalho, desrespeitar os pais de quem perde um filho tão jovem, desrespeitar uma massa imensa de fãs que verdadeiramente amavam o seu popstar.

De minha parte, só desejo a ambos que suas almas sejam acolhidas da melhor forma de acordo com suas crenças (se for de acordo com as minhas estão salvos, os dois). Do cantor sertanejo só fiquei sabendo pela notícia da tragédia, mas o Nico foi um exemplo que durante muito tempo eu feliz queria seguir, e por isso sou grato.

Às duas famílias enlutadas, meus mais profundos respeito e solidariedade em sua dor.

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Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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