Os Cinco Pilas


O ano era 1996, eu tinha 23 anos, ganhava bem, torrava tudo, e tinha uma galera para lá de especial. Era uma época em que as coisas eram decididas na última hora, ou melhor, de sopetão, e foi assim quanto a ir para o Planeta Atlântida¹, que teve sua primeira edição naquele ano.

É claro que não conseguimos acomodação, a praia estava lotada, e como já estávamos lá mesmo estávamos prestes a passar todo o final de semana acordados, ou na melhor das hipóteses dormindo em turnos alternados nas sarjetas, bancos de paraças ou cômoros. Mas fomos salvos por uma véia senhora que por um preço módico cedeu sua enorme garagem e muitos colchonetes para minha galera e eu dormirmos durante nossa estada na praia.

Era madrugada de sábado para domingo, e eu fui o primeiro a não agüentar mais o cansaço. Pedi licença aos meus amigos (éramos uns nove ou dez) e rumei a pé para a garagem da tia. Quando estava quase chegando fui abordado por um rapaz que jazia sentado sobre um murinho baixo de uma residência às escuras.

— Ô, tem horas aí?

— É tal hora — respondi.

— Ô…

— Sim? — indaguei.

— Dou dez reais para te fazer uma chupeta, topa?

Guri que eu era, preconceituoso, intolerante, imaturo, xinguei o cara por ter me feito parar para uma proposta dessas (antes que os malditos perguntem: não, nem bonitinho ele não era), e fui para a garagem tentar dormir.

Tomei um banho rápido — o chuveiro que a tia nos deixou à disposição era gelado — e quando estava deitando em meu colchonete vi um de meus amigos entrando, com uma cara apavorada.

— Bah, Janio, rolou um lance tri estranho comigo, tu não vai me acreditar.

— Que foi?

— Um cara me parou na rua, perguntou as horas e…

— Já sei — interrompi — te ofereceu dez pilas para tu deixar ele cair de boca.

Rimos um pouco do discurso imutável do cara, e ficamos curiosos se os outros também passariam pela mesma situação, e assim foi: cada um que chegava contava o mesmo causo, a mesma reação à mesma oferta. E a expectativa foi se formando porque o único que ainda não havia chegado do Planeta era o Marcelo, um amigo nosso que tinha problemas motores e puxava uma perna e não tinha muita coordenação na mão direita. Estávamos curiosos se o rapaz alegre faria a mesma proposta para ele, ou se pela sua aparência ele seria rejeitado ou menosprezado.

Poucos mas longos minutos depois, a turba de rapazes da qual eu fazia parte presenciou a porta da garagem abrindo-se para dar passagem àquele sujeito magrinho, feinho, e desajeitadinho, mas que era nosso irmão e era um baita parceirão.

— Galera, vocês não imaginam, um putão me parou na rua, e…

— E aí, Marcelo, o que aconteceu? — perguntamos ansiosos em côro.

— E aí, o safado me ofereceu cinco pilas para eu deixar ele me chupar!

Não prestou. O mundo veio abaixo em gargalhadas, e um de nós, mais sádico, teve até um certo prazer mórbido em dizer ao Marcelo que a cotação dele era exatamente a metade da de qualquer um dos seus amigos.

E o resultado de tudo isso? Simples: até hoje o Marcelo, profissional bem sucedido, casado e com filhos, carrega a alcunha de “Cinco Pilas”. Queria saber é como ele explica o apelido pros bacuris.

Abração, Marcelo, se estiver me lendo!


1: Festival de música promovido pela Rede Atlântida de Rádio, na praia de Atlântida Sul (RS), posteriormente foi estendido, até onde sei, para Santa Catarina também.

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Os Cinco Pilas

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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