O vendedor de limão


Ontem o seguinte vídeo apareceu na minha timeline do Facebook.

Era para ser um vídeo de humor, para fazer rir, mas eu só consegui ficar de coração partido.

Explico.

Em primeiro lugar, o vendedor de limão representa a personificação do fracasso do sistema de ensino brasileiro: duvido que ele não saiba que 2×2=4, mas de ter decorado a tabuada a saber fazer uso prático da informação (que é o que a transforma em conhecimento) vai uma distância.

Segundo, é possível perceber o medo que o sujeito tem de ser enganado, trapaceado. A simples menção a “dois por quatro” já o faz rechaçar qualquer ideia, para evitar o golpe.

Terceiro, acho que nunca tinha me dado conta da podridão do escárnio: esses dois sujeitos que conduzem a conversação no vídeo se acham no direito de fazer troça da ignorância e do medo alheios. Milhares de pessoas debochando da limitação do comerciante, como se isso fosse motivo de graça (no momento em que escrevo este parágrafo foram mais de 52.000 compartilhamentos só no Facebook, a maioria com comentários de quem acha muito engraçado o que está vendo).

Em quarto lugar, mas não menos importante, me dá engulhos ver gente que se acha esclarecida fingindo pena do rapaz para arrematar dizendo coisas do tipo “isso vota e você sabe em quem.”

Para começar não é “isso,” é “esta pessoa,” e eu não sei em quem ele vota porque não perguntei a ele diretamente, e mesmo que perguntasse talvez continuasse sem saber porque o voto é secreto e ele não precisaria revelar o seu para mim.

E para finalizar, o voto dele é tão importante quanto o meu ou o seu, e se hoje existem pessoas vivendo nas trevas da ignorância (em termos de erudição) é porque gente “de bem” prefere viver nas trevas da burrice, escarnecendo do trabalho de um cidadão e zombando de seu ganha-pão.

Se existe ignorância não é (só) por culpa dos governos que não investem em escolas, é por culpa de gente como a gente, que tem acesso a Internet, spartphones, computador e o diabo a quatro, mas prefere gastar tempo e energia debochando dos outros ou espalhando ódio por aí, em vez de fazer cada um a sua parte educando uma outra pessoa, de preferência o próprio filho.

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O vendedor de limão

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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