O Segredo – Parte 1


João estava de passagem no aeroporto de Campinas. Sempre detestara essas conexões demoradas, mas em nome da economia que fazia ele relevava o desconforto. Estava indo de Porto Alegre para Belo Horizonte, e seu vôo demoraria pelo menos mais duas horas.

Aeroporto lotado, calor, e de repente João avista no meio da multidão aquela beldade de azul e branco, que sorria sem sorrir, falava sem falar, e fazia João sentir os morcegos batendo asas em seu estômago. Morcegos, porque borboletas não seriam capazes de fazer tamanho alvoroço em seu bucho, combalido pela emoção.

Maria estava de passagem pelo aeroporto, aguardado um voo também. Tinha passado o final de semana com o namorado em São Paulo e agora retornava a Campo Grande, onde a Vida tinha dado um jeito de lhe conseguir uma bolsa de estudos para o mestrado. Vida era o nome duma amiga de sua mãe, esposa de influente político do Centro Oeste brasileiro.

Quando viu João sentado, olhando para ela com ar de babaca, teve vontade de rir, mas em vez disso ficou pensando quem seria aquele esquisito que ficava olhando para ela sem desviar o olhar nunca; estava convicta de tratar-se de algum aluno menos brilhante, daqueles que professor nenhum consegue vincular o nome às feições.

“Para onde é teu voo?” — perguntou o esquisito ao materializar-se ao lado da bela.

Maria explicou toda sua vida em uma síntese que precisaria no máximo de dois tweets para ser narrada. Bem, talvez três.

(João) deu voz ao sentimento mais intenso, profundo e verdadeiro que havia em si.

João sentiu-se diminuído pelo brilho da mestranda, tão jovem, tão inteligente, já pronta para emendar o doutorado no mestrado, contanto que a Vida lhe conseguisse bolsa outra vez.

Sentaram ao fundo da sala de embarque, e João com os olhos marejados de paixão, após ter descoberto que Maria era torcedora do Corinthians mas só porque admirava o papel social do Sócrates, deu voz ao sentimento mais intenso, profundo e verdadeiro que havia em si.

“Maria, estou louco para te comer. Se você disser que dá para mim eu mudo meu bilhete agora mesmo para Campo Grande.”

Maria riu.

“Se não quer dar, então essa semana eu vou a Campo Grande e você me chupa. Ou se for transar com alguém eu posso ficar vendo.”

Maria contendo a exasperação respondeu.

“Por enquanto não, João, meu namorado é ciumento e até no Facebook eu já mudei meu status para namorando sério.”

O que era desejo nas veias de João, misturado com a testosterona numa combinação mais explosiva que Mentos com Coca-Cola, então virou ódio e desprezo. Lembrou-se do caso de Adoniran Barbosa, que ao ser desprezado por uma certa moça disse que iria matá-lá, e no outro dia tinha composto um samba no qual Iracema era atropelada por um ônibus. Pensou que seria a hora de escrever um samba também e sentenciou a acadêmica.

“Maria, eu vou te matar, e vai ser hoje!”

Saiu de perto dela, pegou o tablet e foi procurar na Internet um tutorial de como escrever um samba, com sorte teria até um apepê gratuito para isso. Googlou por “auto samba”, “samba generator”, e outras combinações de palavras chave long tail.

Então, João ouviu anunciar o embarque para Campo Grande, e enquanto esperava as páginas carregarem na conexão EDGE ficou vendo de longe, como nem daria para ser diferente, o avião parado na cabeceira da pista, e então acelerando, e aos poucos ganhando altura.

E ao entrar no espaço aéreo de Indaiatuba o avião explodiu. Ninguém sobreviveu. Os jornais noticiaram como sendo o maior desastre aéreo do interior paulista, como jamais se vira antes na história deste país.

E João, hoje, ganha a vida dando palestras motivacionais e ensinando as pessoas a usarem o Segredo, mas no fundo morre de medo que descubram que ele é uma farsa.


Avisos:

  • Não sei se haverá Parte 2.
  • Todos os fatos narrados nesse texto são pura ficção. Qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.
  • Se gostou, divulga, pô!

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O Segredo – Parte 1

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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