O Mau Humor Crônico dos Garçons Cariocas


Rapaz mal educado
Rapaz mal educado

Tó seu guaraná sem laranja!

Imagino que quando alguém vá procurar emprego de garçom nos restaurantes do Rio de Janeiro a primeira coisa que o entrevistador pergunta é se ele é bem humorado ou não; se o cara não disser que vive de mau humor descartam-no no ato.

É a única teoria em que consigo pensar para explicar o mau humor crônico de que sofrem os atendentes de bares e restaurantes cariocas!

Não que eu seja assim tão assíduo frequentador dos bares e restaurantes cariocas. Mas a impressão geral que fica é a de que ao fazer um pedido qualquer a um atendente de qualquer estabelecimento do Rio de Janeiro estamos cometendo um grave delito, em função das caras feias e da má vontade com que nos atendem.

Tenho um amigo, otimista ao extremo, que jura de pé junto que só o que falta a essa gente é treinamento. Outro diz que a culpa é dos empresários que pagam pouco, e com isso atraem funcionários menos qualificados.

A meu turno, acredito que explicações objetivas não esclareçam o mistério. Tem de ser algo mais complexo, como um complô contra os profissionais bem humorados, ou ameaças às famílias deles, algo do tipo “ou você permanece nesse emprego que odeia ou faremos picadinho da sua vovó por quem foi criado”.

A má vontade começa quando, por nunca sequer ter entrado num determinado restaurante, a gente não entende os pratos ou qualquer coisa do cardápio. Pedir uma explicação gera uma reação de ódio equivalente a xingar a mãe do cara tendo razão (porque só sendo verdade para doer desse jeito).

Aí quando você recusa cerveja ou chopp (seja porque teme que venham quentes, ou porque simplesmente fez a escolha de não consumir álcool) você passa a ser tratado como um viciado em oxi que pergunta se pode queimar uma pedra ali na mesa do restaurante.

Experimente, só para testar, pedir para trocar um dos itens do prato.

— Não posso comer batata, você troca essa porção de fritas por salada de alface?

— Custa trinta e cinco reais a mais. Não fazemos troca. Se não quiser não coma a batata.

— Mas vai sobrar, é desperdício, é melhor não trazer.

— Os pratos são padrão, senhor — com um olhar que diz “mais uma palavra e eu aperto um sílex na sua garganta”.

Aliás, um dos motivos pelos quais não frequento os bares da Lapa (além de ser abstêmio, e achar os preços de lá generalizadamente abusivos) é que você precisa ficar lembrando aos garçons que você não tem culpa de poder estar ali curtindo enquanto eles têm de ficar pajeando você.

Outra experiência interessante é passar pelos estabelecimentos de Copacabana, e após aqueles segundos de falsa simpatia em que os garçons desfiam o rosário de opções da casa você dizer que está indeciso e vai dar mais uma volta. É bom levar alho em algum bolso, para ver se pelo menos ameniza o efeito das energias negativas sobre você.

Quando as atendentes são mulheres, é um capítulo à parte.

Se você der um sorriso para uma mulher, a reação não verbal dela vai ser como se você tivesse dito “eu quero te comer”. Atenção, senhoras e senhoritas garçonetes, vocês não são tão bonitas assim, e a maioria de nós tem material melhor em casa! Quando a gente sorri para vocês esperamos que, pelo menos, vocês sorriam de volta com educação. E como adultas que são, presume-se que saibam identificar quando um homem está a fim de vocês e quando está sendo apenas educado.

Há exceções

Felizmente, há exceções para este triste quadro.

Em (praticamente) um ano morando no Rio de Janeiro, tive a felicidade de encontrar uns poucos lugares em que os garçons não são umas mulas vestidas de pinguim.

Iaiá Garcia

Desde o dia em que descobri o Iaiá Garcia, que fica perto da minha casa, que me tornei frequentador assíduo, principalmente no almoço.

O polinômio variedade + qualidade + atendimento +preço implica uma opção viável e agradável para quem está no Catete.

Os garçons são educados, solícitos e sempre têm um sorriso no rosto.

Agora que já tenho ido lá com frequência eles já perguntam se vai ser “o de sempre”, mas não cometem a indelicadeza de trazer “o de sempre” sem me perguntar antes — sinal de inteligência.

Se for lá, vai ver que o Raimundo, que normalmente fica na churrasqueira, é um capítulo à parte em simpatia.

Outback do Shopping Leblon

Outra agradável surpresa foi o Outback do Shopping Leblon. Só fui lá uma vez, mas presenciei cenas fortes e marcantes.

Enquanto aguardávamos por uma mesa éramos atendidos por duas lindas meninas (lindas mesmo), no balcão. Uma família de blogueiros apareceu — só podia ser, pois só blogueiros conseguem ser tão arrogantes — e conseguiram tirar do sério a mim e a meus amigos que estávamos ali, haja vista as exigências e reclamações absurdas absurdas que faziam. Porém, as duas meninas em momento algum perderam a linha, ou deixaram de sorrir; atenderam os energúmenos como se estivessem falando com uma delegação de lordes ingleses, e nem deixaram transparecer alívio quando eles foram para não me interessa onde.

Os garçons da casa também se mostraram excepcionalmente bem humorados e gentis, e mesmo quando houve problemas com a nossa mesa (comida servida fria, pedidos trocados) os rapazes não se abalaram por um segundo sequer, consertando o mais rapidamente os erros em vez de nos acharem clientes xaropes, rindo de nossas piadas sem graça, e tomando o máximo cuidado para que ficássemos bem atendidos durante toda a estada no restaurante.

Outras exceções

Deve haver outras exceções ao mau humor patológico dos garçons cariocas. Deve haver algum quiosque na orla em que os clientes sejam atendidos com simpatia, bom humor e gentileza. Deve haver algum lugar em algum bairro em que se possa trocar batata por salada sem ser extorquido como quem precisa subornar uma autoridade para não ter o coração arrancado com uma colher plástica de aniversário, como se fôssemos spammers.

Se você quiser me dar uma sugestão, use a página de contato do blog. Mas nada de me dar sugestão furada, hein? Se for para ser mal atendido eu fico em casa xingando muito no Twitter, que eu ganho mais.

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Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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