O inusitado roubo de quatro X-Tudo

O caso do roubo dos quatro xis-tudo fez muita gente rir na Internet. Porém, minha opinião difere da aparente maioria.

07 de maio de 2017 • Por Janio Sarmento, em Crônicas

Vi no G1, a partir de um post no Surrealista, a história de um assalto inusitado: um ladrão que roubou quatro sanduíches.

Em resumo, o sujeito chegou na lanchonete e encomendou quatro X-Tudo. Na hora de pagar ele anunciou o crime (imagino que dizendo “cala boca que isso daqui é um assalto”), fez um caô dizendo que queria o celular da balconista (mas ela não quis entregar e tudo bem), e por fim evadiu-se do local levando consigo os quatro sandubas. Ele também ameaçou a vida da moça, dizendo que se alguma coisa acontecesse consigo ele voltaria para matá-la.

Não li os comentários, porque comentários em portal de notícia costumam me fazer rezar (“Deus, queime meus olhos, ou me torne analfabeto outra vez — o que doer menos”), mas é certo que para quem tem o privilégio de poder comer todos os dias, ou até mesmo de escolher o que vai comer e em que quantidades, essa notícia pode causar graça ou revolta.

Causar graça porque, bem, é totalmente inesperado que alguém roube apenas os sanduíches em uma incursão a uma lanchonete. O cara não quis saber do dinheiro do caixa, não levou nada a não ser a comida na quantidade que ele pediu ao chegar. Exatamente quatro X-Tudo. Ele nem mesmo se incomodou ante a recusa da balconista de entregar o celular.

E causar revolta porque normalmente quem tem privilégios considera gente pobre um estorvo, e o simples fato de o sujeito levar os sanduíches sem pagar é, para eles, justificativa para que se lhe decepem as mãos. Normalmente é o mesmo tipo de gente que veste camisa da CBF para sair em passeata seguindo um pato gigante mesmerizada pelo discurso raso e oportunista de calhordas mal intencionados, achando que com isso vão tornar o mundo um lugar melhor — melhora para quem, né?

Entretanto, esse homem chegou ao ponto de roubar quatro sanduíches numa lanchonete, o ganha-pão da moça que conseguiu salvar o próprio celular e que provavelmente gostaria de trabalhar em algo mais rentável e num espaço mais seguro, onde não precisasse ouvir ameaças — vazias ou não — à sua vida.

Para mim está claro que ele fez isso porque estava com fome, e que não tem graça nenhuma essa situação. Surpreendente e absurdo (elementos para que algo seja engraçado) o episódio é, mas daí a ser engraçado vai um abismo.

Agora, o que mais choca mesmo é a quantidade de gente comentando “kkkk” a respeito do assunto, de gente que se acha no direito (legítimo, claro) de apenas rir e seguir seu rumo, como um tolete vagando ao sabor da enxurrada. Gente que faz a escolha consciente de não colocar-se no lugar do outro, de nem ao menos tentar exercitar a empatia. O que importa, para eles, é a “zuera” (que eu adoraria eles aprendessem a escrever corretamente: zoeira).

Para mim não serve esse posicionamento indiferente. Espero que tampouco sirva para quem me lê. E espero não ser necessário explicar por que essa falta de empatia é perniciosa, porque paciência até tenho, mas anda bem escassa ultimamente.

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