O “gaúcho praticante”


Torcedores do Grêmio comemorando a vitória do seu time

Se é que alguém não sabe, eu sou gaúcho, e embora ache que o melhor lugar de Porto Alegre seja o Salgado Filho (quem entendeu me adedê), sinto-me um grande afortunado por ter nascido nesse Estado, que talvez não seja melhor nem pior que nenhum outro, mas tem um povo bonito, trabalhador e hospitaleiro. Ao menos a maioria, com quem eu tive a sorte de conviver.

É claro que tem gente burra e preconceituosa por todo o Estado, mas isso não é “privilégio” exclusivo dos gaúchos: o Rio de Janeiro, cidade que escolhi para morar e a quem entreguei meu coração já da primeira vez em que a visitei, é pródigo em casos de preconceito e violência gratuitos.

Torcedores do Grêmio comemorando a vitória do seu time

Talvez a pior coisa de ser gaúcho, para alguns gaúchos, seja o fato de serem obrigados a aturar a infinidade de piadinhas bestas que fazem associando nossa naturalidade com homossexualidade. E o efeito, logicamente, é tanto pior quanto maior o desconforto demonstrado pelas pessoas (como naquela pataquada de quererem boicotar os humoristas do Casseta & Planeta em Porto Alegre).

Alguns têm presença de espírito de combater esse humor chulo com o mesmo tipo de graça (eu, por exemplo), mas a maioria só sabe se melindrar mesmo.

A origem da “fama” de viado dos gaúchos

De fato, nunca saberei de onde surgiu a fama de viado dos gaúchos, mas entre as diversas explicações que já ouvi, uma que me parece plausível é a de que no passado Pelotas (que está para o Rio Grande do Sul assim como o Rio Grande do Sul está para o Brasil, em termos de generalização tosca) era um polo muito rico, e os estancieiros mais abastados mandavam seus filhos para Paris para estudar (normalmente medicina), e estes ao voltarem se mostravam muito mais educados, com maneiras refinadas, e um sotaque que diferia do que eles provavelmente teriam antes de cruzar o oceano.

Dizem também que por serem letrados esses mesmos rapazes não iam para o campo de batalha na época da Guerra dos Farrapos, fazendo com que os próprios conterrâneos criassem lendas sobre sua virilidade.

“Gaúcho praticante?”

Não faz muito tempo eu estava voltando ao Rio de Janeiro, depois de ter passado alguns dias no Rio Grande do Sul. Foi a última vez que desembarquei no Galeão — e espero que não seja força de expressão: pretendo nunca mais botar meus pés naquele aeroporto, embora não seja tolo para incorrer em “dessa água não beberei”.

“É gaúcho? Mas não é praticante, é?”

Estava com pressa, queria chegar logo em casa porque tinha milhares de coisas a fazer, e acabei correndo todos os riscos, e embarcando em um táxi (mas fica a dica: quando precisar, no Galeão, pague mais caro, mas vá de táxi de cooperativa, sempre, porque a chance de ser um bandido travestido de taxista pirata fica praticamente anulada, e qualquer coisa que aconteça você tem cooperativa para reclamar).

Não gosto de prestadores de serviço que ficam puxando muito assunto comigo: taxista, barbeiro, garçom, etc. E neste dia dei azar de ser atendido por um taxista chato para caramba. Fez um extenso interrogatório sobre minha pessoa, e quando eu disse que moro no Rio de Janeiro mas nasci e me criei no Rio Grande do Sul, o diálogo rolou mais ou menos assim:

— Ah, quer dizer que tu é gaúcho?

— Sim, sou gaúcho.

— Mas não é praticante, é?

— Como assim, praticante?

— É, gaúcho, viado, sabe como é, né… — disse-me o chofer com uma cara de besta.

— Ah! Isso?! Sou sim, sou praticante. Vim para o Rio de Janeiro para comer o cu de todos os taxistas viados metidos a besta. Quer ser o primeiro?

E o sujeito se calou, aparentemente por ter gostado menos da minha piada de taxista viado do que eu da dele, de “gaúcho praticante”.

Não faça isso em casa

Creio que seja até meio desnecessário um aviso deste tipo, mas não custa nada: eu fui muito imprudente de ter feito esta “brincadeira” com o taxista. Se ele resolvesse parar o carro em plena Linha Vermelha e querer tirar satisfação na base da porrada, um de nós não poderia sair vivo (porque sou do tipo que não saca a espada se não for para ela voltar suja de sangue para a bainha, seja o meu ou o do meu oponente).

A melhor atitude é, sem dúvida, a de relevar e não entrar em confronto.

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O “gaúcho praticante”

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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