O Encontro Amoroso


João uma vez teve uma namorada. Ela se chamava Maria.

Um dia João encheu o saco dos caprichos de Maria, e nunca mais foi vê-la. Maria ficou fula porque era a primeira vez que um homem a desprezava. João ficou fulo porque ia ter de voltar a caçar.

Um dia, João resolveu aliviar a dor nos braços e procurou Maria. Eles se encontraram, conversaram muito, ela o fez pagar um jantar caríssimo, e na hora da sobremesa o dispensou. Vingança? Não se sabe.

João passou mais umas quatro encarnações sem conversar com a Maria.

Um dia eles se reencontraram. Porque João, novamente com os braços doloridos, telefonou e a convidou para jantar.

— Vem aqui na minha casa, meus pais também têm saudade.

João foi.

Lá chegando, João sentiu na pele a dor de ser trollado pelo ex-sogro.

— O que houve com a bicicleta, quebrou? Não era melhor ter vindo a pé e economizar o dinheiro do táxi para consertar a magrela?

“Não alimente os trolls”, pensava João.

Vigarista, João esperava tirar a barriga da miséria com um lauto jantar oferecido pelos pais de Maria. Estava certo.

Mas nem bem sentaram-se à mesa e os pais de Maria começaram a brigar e a discutir sem parar.

— Velha escrota!

— Velho babão!

— Sua feiosa!

— Seu impotente!

João não conseguiu comer tanto quanto gostaria, tanto por causa da confusão quanto porque planejava fazer atividade física após o jantar. Pegou Maria pela mão e a levou para o quarto. Fizeram atividade física loucamente como dois adolescentes.

— João, só tem um probleminha — disse ela já vestindo a roupa sobre seus fluidos corporais —, é que o banheiro do meu quarto está seco, e não vai dar para tomar banho.

— Qual é, tá me estranhando, mulher? — vociferava ele com a camisa de outro planeta ainda vestida.

— Então vá tomar banho na suíte dos meus pais.

Ele foi.

Aproveitou a água quente na temperatura, pressão e volume perfeitos, aliviou o estresse, e exorcizou das tripas toda quantidade de gases que foi capaz. Parecia uma sinfonia.

Ao sair do banheiro, João foi surpreendido com seu ex-sogro deitado pelado sobre o leito, em decúbito frontal, brigando ferozmente com um controle remoto. João quase morreu de vergonha, e agradeceu a Deus por ter levado as roupas para o banheiro.

“Tomara que ele tenha esquecido de trocar as pilhas do aparelho auditivo”, pensou João.

— Me ajuda aqui com esse troço, não consigo achar o Hustler TV — pediu o despido ancião com a naturalidade que até então João só havia presenciado nos bêbados.

Era um AZ Box. João não entendia como família tão abastada ainda cometia o delito de não pagar pelo conforto de uma tevê por assinatura.

Enquanto tentava sintonizar os canais, o velho acocorou-se ao lado de João.

De repente, o sobrenatural!

“Meu Deus, deve ser o diabo em pessoa que veio me buscar, esse fedor só pode ser de carne de urubu em conserva de enxofre, só pode vir do último dos infernos, não existe na terra um fedor como esse!”

— Discurpa… Sortei um peidim… — disse o coroa entredentes.

— Seu José, vá se tratar! Pelo fedor o senhor está com câncer nos intestinos, o estômago está podre, e o que anima seu corpo são só os vermes que já estão lhe comendo!

O velho ria.

Nesse momento Maria apareceu no quarto do pai. Levou uma bronca.

— Cê não tá vendo que eu tô pelado, menina, raspe daqui!

João já estava arrependido. Com o dinheiro do táxi ele poderia ter ido a uma casa de tolerância, aliviaria a dor nos braços (na verdade mais no direito) e não teria de configurar tevê pirateada para nenhum velho gagá fedorento.

Inventando uma desculpa, João desceu para a sala, em desabalada carreira rumo à porta de saída.

Mas eis que a mãe de Maria resolve pegá-lo para fazer queixas. Ou dar conselhos. Ou pedir ajuda. Ou cantar. João não sabe, pois quando a velha abria a boca ele só ouvia uma sílaba.

— Mimimi mimi mi mimi mimimi mimimimi…

Já sem esperanças de sair com vida dessa aventura, João foi salvo por um golpe do destino: Seu José resolveu descer pelado do quarto para discutir mais com sua esposa, e quando os dois se distraíram um com o outro João se jogou pela janela mais próxima. Felizmente ele estava no primeiro andar. Infelizmente ele caiu sobre um canteiro de roseiras, arranhando-se todo. Felizmente ele estava novamente em liberdade.

E João correu por ruas, campos, avenidas, rios, mares, correu por setenta dias e setenta noites sem parar.

E João virou santo, porque enquanto corria ele pedia perdão de todos os seus pecados. Deus perdoou. Mas João ainda não sabe, nem que foi perdoado nem que é santo. E na semana que vem talvez ele sinta dor no bíceps novamente, quiçá abrindo mão da santidade conquistada.

É a vida.

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O Encontro Amoroso

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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