O dia em que eu fui babaca de propósito

Embora a recusa em admitir, as pessoas são babacas o tempo inteiro, quero crer que involuntária ou pelo menos inconscientemente. Dia desses eu fui babaca de propósito, e vou contar como foi.

23 de setembro de 2016 • Por Janio Sarmento, em Crônicas

Aí diz a lenda que o presidente em exercício, o Temer, e as piadinhas vocês fazem nos comentários, fez um discurso na Assembleia da ONU em que ele, supostamente ou não, diz:

Acreditamos no poder do diabo. — TEMER, Michel Miguel

Quando me falaram sobre o acontecido eu logo pensei: “o cara deve ter tentado falar diálogo. Como não tem mesóclise ele se enrolou e acabou falando outra coisa.” Mais ou menos como a brincadeira do “paca tatu, cotia não” que até hoje eu não entendi, mas finjo que sim para não descobrirem o quanto eu sou burro.

Só que não dava para perder um mote desses, e lá fui eu, no vídeo original (a parte polêmica ocorre aos 1min20), deixar um comentariozinho de galhofa.

Já nem sei mais exatamente o que disse, mas foi algo como: “Só quem dialoga com Satã para achar que ele falou diálogo. Ele foi bem claro ao falar poder do diabo.”

Na verdade foi exatamente isso que escrevi.

Depois deixei outro comentário em essência tão estúpido quanto o primeiro, usando dos mesmos mecanismos dos fanáticos. Mimetizei a burrice com tamanha perfeição que até os fanáticos acharam que eu era farinha do mesmo saco que eles.

“Diálogo só para quem é satanista e está acostumado a falar com o capiroto. Quem não admite que ele saudou o diabo ou é satanista igual a ele, acostumado a dialogar com o inimigo do povo de Deus, ou está possuído. Ele cumpriu a obrigação de reforçar o pacto.”

“O papel aceita tudo. Qualquer um pode dizer que é cristão. Agir como tal são outros quinhentos. A estratégia do inimigo é iludir e mentir mesmo, a palavra já alerta sobre isso há milhares de anos. Mas não estou aqui para julgar, até porque Deus ama o pecador mas abomina o pecado.”

Quando começaram a me chamar de irmão evoluí (ou involuí, depende do ponto de vista).

“O pior cego é o que não quer ver. Deus mandou seu filho para a cruz para nos salvar, e aí? Não adiantou nada, o que se vê são satanistas travestidos de cristãos desculpando seus iguais e chamando outros cristãos de irmãos para se acobertarem.”

É mais do que óbvio que eu não acredito nisso, mas a brincadeira foi muito divertida (quem mandou Jesus para a cruz foi Caifaz, eu me lembro como se tivesse sido há dois mil anos). Logo fui adiante deixando outras pérolas da estupidez abominável que de tão comum mundo afora passou por manifestação a sério.

“Quando fez o pacto com o canhoto ele não ficou nervoso, mas na hora de honrar seu nome imundo diante da ONU ele fica? Só satanista ou possuído para acreditar que ele falou diálogo. Que a paz do Senhor inunde seus corações, ou então ardam nas chamas do inferno eternamente!”

Houve quem tentasse me chamar à razão, me pedindo para raciocinar. Para estes eu respondi: “tá repreendido em nome do senhor!”

Cometi outros comentários, inclusive explicando como “a palavra” ensina a reconhecer os ardis do “inimigo”.

O que aprendi ao comentar como uma cavalgadura

Essa experiência não valeria de nada se não pudesse eu extrair algum aprendizado dela. E aprendi que quando as pessoas dizem “a zoeira, ela nunca acaba” é porque realmente isso é verdade.

Acredite: é extremamente divertido fingir que não tem cérebro e usar de argumentos falaciosos, nonsense ou decididamente mentirosos (como o cara que via sinais maçônicos em tudo que é lado) para atacar a crença do outro.

Disso compreendi que toda essa polarização política que existe não pode ser só porque as pessoas são estúpidas até o osso. Algumas são mesmo, fazem questão de sê-lo (mesmo que não sejam funcionários dos Correios). A polarização existe porque alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo.

As pessoas falam asneiras do tipo apoiar o deputado aquele que faz apologia ao estupro e à tortura para presidente em 2018, falam em Nova Ordem Mundial, conspiração Iluminatti, falam que o presidente em exercício é capaz porque não leu o discurso (desconhecem um aparato tecnológico chamado teleprompter), mas não tem como ser a sério: é tudo para ver o horror na reação alheia, exatamente como eu, sádico, passei quase uma hora fazendo.

Fingir que não tem cérebro pode ser divertido, mas é muito vazio. Dá um horror depois, porque você se dá conta que é impossível distinguir os idiotas autênticos dos fingidores (ainda mais quando fingem acreditar na idiotice que deveras sentem).

O lado positivo disso tudo é que até mesmo em momentos de desgraça como o que vivemos, para deleite do gado que bate panelas no brete que antecede a marretada na cabeça, as pessoas conseguem rir e fazer piada.

O lado negativo é que é muito triste que pessoas boas (tipo eu próprio) encontrem diversão no sadismo, alimentando a paranoia alheia para rir desgraçadamente.

Afinal, não pode ser todo mundo estúpido a ponto de acreditar que um torturador no comando do país seja algum tipo de avanço, né? Ou de considerar avanço que as escolas não ensinem mais artes, sociologia ou história (sobre educação física prefiro não comentar). Não pode ser. Não pode. Não pode.

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