Novilingua


“Novilingua” foi como traduziram (muito bem) para o Português o termo “newspeak”, forjado por George Orwell em seu formidável “1984”. Não vou me estender em considerações sobre o livro, até porque todo mundo já deve estar careca de saber quem era o Grande Irmão (“Big Brother”) e qual sua função no Estado.

O “novilíngua” (assim mesmo, sem a inicial maiúscula, devido à sua própria natureza) era o idioma que o Estado impunha, que anualmente era revisado. Só que ao invés de as “especificações” do novilíngua acolherem as novas palavras que haviam sido adotadas pela população, ampliando a capacidade de expressão e, conseqüentemente, facilitando o raciocínio e o entendimento das idéias, na verdade reduzia o vocabulário, tanto pela eliminação de palavras e expressões mais complexas quanto pela aglutinação de palavras formando uma só, ou simples supressão de letras e fonemas dos vocábulos.

Eu ficaria extremamente feliz se o novilíngua se mantivesse restrito ao âmbito do livro do Orwell, ou de outros romancistas. Mas, ao invés disso, o que vejo é a Língua Portuguesa sendo brutalmente assassinada a cada dia. Alguns exemplos são:

“Gerundismo”: o mais irritante de todos, pois as mulas que têm esse vício de linguagem acham que estão arrasando com a concorrência, que é toda “out”, e apenas elas (as mulas) são “in”.

Na qual/no qual: esse é hilário, pois na tentativa de falar difícil as pessoas acabam inserindo uma construção que não tem absolutamente nada a ver. Exemplo: “Janio, hoje vou ‘num’ aniversário, na qual queria que tu me emprestasses tua câmera”. Eu ouvi isso. E não emprestei a câmera.

Estrangeirismos: do jeito que percebo as coisas, este é um dos problemas menos graves, que só se torna reprovável quando vai ao exagero. Mas não fosse pelo galicismo “abajur” acho pouco provável que falássemos “quebra-luz”, e nem imagino como seria “sutiã” (“corpinho”, talvez); da mesma forma, acho que “webcam” exprime uma idéia muito mais exata do que o aparato é do que “câmera digital”. Mas dizer que vai comer um “hot dog” ao invés de um cachorro-quente, ou as lojas aplicarem etiquetas “50% off” ao invés de “50% de desconto”, ou “big sale” ao invés de liquidação, isso tudo já parte para o exagero!

Mas confesso que nada me incomoda mais do que a maneira como as pessoas escrevem em salas de bate-papo, ou comunicadores instantâneos, bem como em mensagens de correio. Novilíngua total é escrever “keru” ao invés de “quero”, “bunitin” ao invés de “bonitinho”, e outras atrocidades. Ah, claro, não posso deixar de mencionar a tortura que é ler pseudofrases inteiras em que os verbos no infinitivo não têm o “r” final, e o leitor fica na dúvida se aquilo realmente é um infinitivo, ou se é uma conjugação.

Não sou dado a entrar em salas de conversa, mas quando alguém tasca um “blz” para cima de mim, imediatamente pergunto o que é isso, e quando a mula diz que é “beleza”, eu pergunto logo em que idioma. Quem não usa pontuação, acentuação, quem escreve “saudadi do6” ao invés de “saudade de vocês”, quem escreve “kkkkkk” como onomatopéia para o riso, vira objeto de piada e troça. Pena que raramente estes entendem por que me divertem tanto.

Creio que a causa disso seja uma educação deficiente. De uns 30 anos para cá as crianças vêm sendo criadas cada vez mais em um ambiente de permissividade. Não defendo que os pais devam ser hipócritas ao ponto de exigirem dos filhos posturas que eles mesmos jamais tiveram ou teriam. Mas creio que ao pouparem as crias de aprenderem em alguma situação de sofrimento ou constrangimento, os pais estejam na verdade prestando um grave desserviço àqueles cujas vidas e educação lhe são confiadas. Ensinar a ler e escrever corretamente é uma função social da família.

Lembro que uma vez meu irmão, então com uns 14 anos de idade, resolveu que queria pôr um piercing (este é outro anglicismo que explica muito bem a idéia do que é). Nosso pai, então, totalmente fiel a seus próprios valores, decretou: “lógico que eu deixo fazeres isso, mas o preço que isso vai te custar vai ser eu atravessar teus dois bagos com um prego quente, para eles ficarem tão enfeitados quanto tua orelha”. E ele faria mesmo, quem conhece o velho Jaime sabe que ele não brincaria com uma coisa dessas.

Se eu tivesse um filho adolescente e o flagrasse usando “k” ao invés de “qu”, suprimindo o “r” dos infinitivos, ignorando vogais, ou qualquer outra mostra de preguiça mental, que leva à atrofia cerebral, eu garanto que o preço que isso custaria a ele seria uma ameaça semelhante à que sofrera seu tio. E, a mim, custaria um sentimento de fracasso muito grande. Afinal, eu teria sido um péssimo pai se pusesse no mundo um ser que se recusa a ser dono dos próprios pensamentos, que vai aos poucos aniquilando o que de mais maravilhoso tem um ser humano: sua capacidade mental. Eu me sentiria indigno de viver nesse planeta.

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Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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