“Não se enche a pança de cracudo”


Aí eu fui na lanchonete para jantar. Estava chegando na esquina e um moço sujo e maltrapilho me pediu se eu tinha algo para que ele pudesse comer, pois estava “com uma fome danada”. Disse a verdade: não tinha dinheiro para dar, mas poderia comprar um sanduíche se ele aceitasse. Combinamos que eu daria a ele a mesma coisa que comprasse para mim.

Da lanchonete um senhor observou a cena e quando cheguei ele disse: “é por causa de gente como você que esse país não vai para frente, onde já se viu comprar comida para vagabundo, encher a pança de cracudo”. Outros gatos pingados fizeram coro, enquanto eu realizava o pedido no balcão.

Ante minha falta de reação ficaram ainda mais exaltados, e não tardaram a me acusar de comunista, a dizer que a culpa é do Lula e do petê.

Rapidamente o pedido ficou pronto. Empunhei as duas sacolinhas — a minha e a do moço faminto — e olhando tanto quanto possível nos olhos deles disse:

— Vocês se deixam definir pelo medo e pelo ódio; já eu escolho a humanidade e a solidariedade. Cada um é feliz como sabe, ou como consegue. Que o meu Deus os abençoe, que o seu sabe-se lá, né?

O moço da rua, no fim, disse que a Coca-Cola tinha sido uma extravagância, que até mesmo o sanduba já era muito mais do que ele esperava para esta noite.

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“Não se enche a pança de cracudo”

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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