“Não se enche a pança de cracudo”


Aí eu fui na lanchonete para jantar. Estava chegando na esquina e um moço sujo e maltrapilho me pediu se eu tinha algo para que ele pudesse comer, pois estava “com uma fome danada”. Disse a verdade: não tinha dinheiro para dar, mas poderia comprar um sanduíche se ele aceitasse. Combinamos que eu daria a ele a mesma coisa que comprasse para mim.

Da lanchonete um senhor observou a cena e quando cheguei ele disse: “é por causa de gente como você que esse país não vai para frente, onde já se viu comprar comida para vagabundo, encher a pança de cracudo”. Outros gatos pingados fizeram coro, enquanto eu realizava o pedido no balcão.

Ante minha falta de reação ficaram ainda mais exaltados, e não tardaram a me acusar de comunista, a dizer que a culpa é do Lula e do petê.

Rapidamente o pedido ficou pronto. Empunhei as duas sacolinhas — a minha e a do moço faminto — e olhando tanto quanto possível nos olhos deles disse:

— Vocês se deixam definir pelo medo e pelo ódio; já eu escolho a humanidade e a solidariedade. Cada um é feliz como sabe, ou como consegue. Que o meu Deus os abençoe, que o seu sabe-se lá, né?

O moço da rua, no fim, disse que a Coca-Cola tinha sido uma extravagância, que até mesmo o sanduba já era muito mais do que ele esperava para esta noite.

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“Não se enche a pança de cracudo”

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

6 comentários

  • Lucho:

    Garanto que essas pessoas que te ofenderam naquele dia têm conta no facebosta e mandam todo dia aquelas mensagens melosas de “Bom dia. Que Deus abençoe o seu dia”.

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  • Fabiano C.:

    Mas que bela ação, amigo! Podemos mudar o mundo para melhor de muitas formas diferentes. Uma pergunta: Será que caridade tem limite?
    Um abração! Blog maneiro!

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    • Janio Sarmento:

      Olha, é complicado de responder uma pergunta dessas.

      Mas eu acho que um bom começo para qualquer reflexão nesse sentido é a pessoa perguntar a si mesma o que a move a fazer ou deixar de fazer alguma coisa (sendo que mesmo o fazer nada é fazer algo).

      De minha parte, com toda a honestidade, o que me move a crença (para simplificar o palavreado) de que o outro sou eu, e o que eu faço a ele faço a mim. Ou, para ser um pouco menos abstrato, o pensamento de “e se fosse eu no lugar dele”.

      Tem gente que faz caridade com vistas em exercitar um “poder” sobre o outro, ou com o objetivo de humilhar a outra pessoa. Não cabe a mim julgar, mas já julguei todos os que fazem isso e acho que, em casos assim (onde a intenção oculta é de agredir o beneficiado pela suposta caridade) é necessário, sim, haver limites.

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  • Theo:

    Muito bom, Janio. No fim das contas, é isso – esses momentos revelam as pessoas, o que sempre leva à incontornável pergunta: pra que raios estamos aqui? Qual o sentido disso tudo?
    Acho que a sua ação tem mais a ver com solidariedade, amor. Caridade ou filantropia têm mais a ver com expiação. Implicam necessariamente uma hierarquia. Um filantropo não quer um outro mundo, quer apenas convencer, a si e aos outros, que é um, err… cidadão de bem.

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