“Não se enche a pança de cracudo”


Aí eu fui na lanchonete para jantar. Estava chegando na esquina e um moço sujo e maltrapilho me pediu se eu tinha algo para que ele pudesse comer, pois estava “com uma fome danada”. Disse a verdade: não tinha dinheiro para dar, mas poderia comprar um sanduíche se ele aceitasse. Combinamos que eu daria a ele a mesma coisa que comprasse para mim.

Da lanchonete um senhor observou a cena e quando cheguei ele disse: “é por causa de gente como você que esse país não vai para frente, onde já se viu comprar comida para vagabundo, encher a pança de cracudo”. Outros gatos pingados fizeram coro, enquanto eu realizava o pedido no balcão.

Ante minha falta de reação ficaram ainda mais exaltados, e não tardaram a me acusar de comunista, a dizer que a culpa é do Lula e do petê.

Rapidamente o pedido ficou pronto. Empunhei as duas sacolinhas — a minha e a do moço faminto — e olhando tanto quanto possível nos olhos deles disse:

— Vocês se deixam definir pelo medo e pelo ódio; já eu escolho a humanidade e a solidariedade. Cada um é feliz como sabe, ou como consegue. Que o meu Deus os abençoe, que o seu sabe-se lá, né?

O moço da rua, no fim, disse que a Coca-Cola tinha sido uma extravagância, que até mesmo o sanduba já era muito mais do que ele esperava para esta noite.

Compartilhe

Avalie este conteúdo!

Avaliação média: 4.75
Total de Votos: 4
“Não se enche a pança de cracudo”

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

Comente!

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.