Minha bolha é sagrada

Vira e mexe a discussão sobre por que manter uma bolha social reaparece entre meus queridos. A minha é sagrada.


Você sabe o que é uma bolha social: é um espaço abstrato em que a pessoa se mantém por qualquer motivo (controle, conforto, proteção, etc) e no qual só entram pessoas com pensamentos e valores iguais, deixando de fora pessoas com atitude diferente (sendo que discurso também é atitude).

Vira e mexe o assunto reaparece entre as pessoas de quem gosto. Quando é para defender a bolha eu não sou tocado pela fala delas, mas quando é para refutá-las aí eu fico incomodado.

O argumento dos que rejeitam as bolhas sociais normalmente variam em duas abordagens:

  • a pessoa não pode ignorar que existam opiniões diferentes, pois isso limita o seu próprio crescimento como pessoa;
  • se o discurso estiver circunscrito à bolha serão iguais falando para iguais, o que reforça o item acima e também impede que pessoas “menos iluminadas” possam beneficiar-se da visão superior da pessoa que não se faz ouvir alhures.

Seria lindo se as pessoas usassem os meios sociais (de todo tipo, inclusive aquela conversa na fila da padaria) para externar opiniões, e nessa lindeza os dois argumentos acima, com toda a miríade de variações, fariam sentido.

Entretanto, as pessoas acham que desejar abertamente, fazer apologia, pedir pela morte de outra pessoa seja emitir opinião. Não é.

Opinião é achar que Capitu traiu (ou não) Bentinho.

Clamar pela morte de outra pessoa é algo totalmente diferente. Ameaçar, então, parece-me até que é crime previsto em lei.

Honestamente, eu quero distância de gente, por exemplo:

  • que acha que está tudo bem uma pessoa ser assassinada porque tem preferências sexuais diferentes da dela;
  • que acha que os holandeses masturbam bebês de sete meses de idade;
  • que acredita em mamadeira de piroca;
  • que acha que realmente o ministro moron “arrancou” tomadas dos presídios;
  • que comemora quando um político, o único abertamente afeito às questões das minorias, precisa exilar-se por causa das ameaças de morte contra si e seus familiares;
  • que acha que tais ameaças, devidamente registradas com provas e evidências junto à Polícia Federal, são factoides;
  • que acha que um jovem negro de 16 anos de idade já pode ser fuzilado se cometer qualquer deslize, mas que um velho de 37 anos, branco, ainda é um garoto que precisa amadurecer;
  • que acha que mulher tem que ganhar menos porque engravida;
  • que não tenha empatia, enfim, para colocar-se no lugar das pessoas que não gozam dos mesmos privilégios.

Aí podem argumentar: mas cabe a nós, que temos mais clareza, ensinar estas pessoas.

Bicho, na boa, serião: não me venha com esse papo de Poliana para cima de mim. De onde eu vejo, só tolera esse tipo de discurso de ódio quem se coaduna com ele. A pessoa releva a outrofobia alheia para que não olhar para a sua própria, seja numa atitude inconsciente, seja de caso pensado.

Assim, minha bolha é um espaço sagrado. Ela me protege deste tipo de gente que me faz sofrer. É meu direito não ser exposto diretamente aos perpetradores da maldade.

Qualquer um que tentar furar minha bolha para contaminá-la com valores que não sejam também meus vai ser bloqueado. E não falo exclusivamente de redes sociais: já deixei de frequentar dezenas de estabelecimentos comerciais, por exemplo, porque os donos expressam valores que considero inadmissíveis (como achar que têm o direito de decidir por vida ou morte de um terceiro). E vou continuar agindo assim.

Se a minha missão nessa vida fosse (não é) a de convencer alguém a ser melhor ao preço da minha própria sanidade, eu estaria ferrado com o karma, porque falharia miseravelmente.

Assim, se você acha que não precisa de uma bolha, se acha as bolhas sociais feias, chatas e com cara de melão, divirta-se caminhando no lodo. Mas não tente me convencer a sair do meu espaço de conforto porque, assim como os crentes em mamadeira de piroca têm o direito a não mudar de opinião e a disparar sua metralhadora de coprosofia descontroladamente, eu tenho o de minimizar o meu contato com essa gente.

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Minha bolha é sagrada

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

4 comentários

  • Lucia Freitas:

    dá-lhe comentário tardio, mas…
    tu acha mesmo, meu bem, que esse povo que acredita nessas mentiras todas vão entender o que é uma metralhadora de coprosofia? hahahahahahahah (tanques pela gargalhada)

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    • Janio Sarmento:

      Não vão, meu amor, mas não foi pra eles que eu escrevi. 😉

      Responder
  • Israel Cefrin:

    Rapaz, eu li e fiquei feliz por fazer parte da tua bolha, mas o que é “coprosofia” ?

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    • Janio Sarmento:

      Coprosofia é um termo que inventei para designer ideias de merda, pensamentos de merda.

      Responder

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