Lugar de Criança é em Casa


A frase que dá título a este texto foi uma das coisas que mais ouvi de meu pai quando eu era criança. Na verdade, a frase completa é “lugar de criança é em casa, junto do pai e da mãe”. Claro que isso me incomodava muito, pois meus amiguinhos podiam ir dormir na casa uns dos outros (menos na minha, e menos eu que também não ia na deles); meus amigos e primos passeavam com os tios mais abonados, iam para a praia, para a serra, e eu sempre em casa, em casa, e em casa.

Só que agora que eu vejo e sinto as coisas como homem e não mais como menino, eu dou razão ao meu pai. Homem sábio é ele, e soube criar filho como ninguém.

A “inspiração”, digamos, para escrever estas linhas é um e-mail que os apresentadores do Pretinho Básico, talk show humorístico da Rádio Atlântida FM, para quem não sabe (sem link porque aquele CMS da RBS é um lixo, não tem permalinks, não tem trackbacks, muito menos feeds RSS). Nele, um cara escreve “como traumatizar uma criança”.

Em resumo, o sujeito diz que levou o sobrinho de seis anos para o Olímpico, para ver a final da Libertadores (Boca Juniors tratorou o Grêmio). Conta que estavam num grupinho, e alguém de fora do grupinho jogou uma garrafa na polícia de choque; os policiais, por sua vez, teriam ficado descontrolados, apontando armas para todo mundo, inclusive as crianças; e que quando ele foi argumentar com os PMs estes o cagaram a pau espancaram, ante o olhar atônito do menino que chorava e implorava que parassem de surrar seu tio. Depois o cara diz que o menino estaria argumentando: “tio, mas a polícia não existe para nos proteger?”.

Em primeiro lugar, antes de mais nada, a pergunta que não quer calar: desde quando um estádio cheio de fanáticos, em dia de partida contra outro time cuja torcida é ainda mais fanática, e tão bandida e marginal quanto a do Grêmio (a generalização é de propósito, e se alguma das exceções se sentir ofendida, recomendo que se autoanalise para ver se é tão exceção assim), é lugar para um guri de seis anos de idade?

A segunda pergunta que não cala, sem querer defender o(s) policial(is) que surrou(aram) o cara, é: o que é que pode estar passando pela cabeça de um soldado da tropa de choque ao ver aquela massa ensandecida de ignorantes inflamados de paixão e ódio, entoando palavras de ordem e confessando seu desprezo pela torcida vizinha? Existe chance de este profissional não generalizar, quando se vê diante de uma massa de milhares de pessoas agredido por uma garrafa caída do céu?

Um pai que deixa seu filho de seis anos ir para um estádio de futebol num dia como o de ontem só pode ser um alienado. Aonde quer que se andasse em Porto Alegre era possível perceber o estresse, os ânimos exaltados, o medo, a raiva, o despeito, em grande parte da população. Indistintamente, devo dizer. Porque se os ignorantes (para usar um eufemismo) da torcida do Grêmio estavam exaltados porque seu time estava prestes a disputar um jogo perdido contra o seu maior rival (ou contra o maior rival de qualquer time brasileiro), os ignorantes da torcida do Inter estavam exaltados tentando gozar com o pinto dos argentinos, inflamando ainda mais o rancor e o ódio da torcida tricolor.

Como que um pai de família vai deixar seus filhos pequenos saírem de casa numa noite como a de ontem, para ir a um estádio lotado de fanáticos, débeis-mentais, apaixonados, rancorosos, torcedores do Grêmio? Por que é que essa criança não estava aconchegada nos braços do pai, em casa, vendo o jogo pela tevê, com toda a segurança possível?

Há também uma terceira pergunta que não quer calar. Diz respeito àqueles adultos vis que se escondem atrás de crianças para protegerem sua covardia. Por exemplo, aqueles adultos que obrigam seus rebentos a venderem balas no metrô e no meio do trânsito. Respeitadas as diferenças, parece-me que um torcedor fanático o suficiente para ir ao estádio levando consigo uma criança só pode estar querendo utilizar o miúdo como escudo social, na tentativa de proteger sua falta de culhões para fazer sem o pretexto o que ele deseja realmente fazer no meio da multidão.

Finalmente, caso essa história seja mesmo verdade, ainda há um fio de esperança para o garoto. No final do e-mail lido durante o programa, o narrador diz que o guri “não quer ir nunca mais a um estádio”. Ainda bem. Respeitem a vontade da criança, e os danos serão certamente minimizados.

Compartilhe

Avalie este conteúdo!

Avaliação média: 4.5
Total de Votos: 11
Lugar de Criança é em Casa

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

Comente!

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.