Filhos de Chocadeira


foto de uma senhora idosa
foto de uma senhora idosa

Foto meramente ilustrativa

Ontem à tarde, por volta das 16h, consegui parar para almoçar. Fui até um lugar qualquer no bairro em que moro para comprar comida, e presenciei uma cena que me faz crer que pelo menos metade da humanidade, contrariando toda a ciência estabelecida, não nasceu do ventre de uma mulher, o que me faz crer que sejam filhos de chocadeira.

De longe avistei uma figura fágil, arqueada, parada no meio da calçada. Ao aproximar-me um pouco vi que se tratava de uma senhora de idade bem avançada, é certo que tinha para lá de 90.

Durante vários metros de caminhada fiquei me perguntando “o que será que a véia tá fazendo parada no meio da rua?”, já que ela não se movia de onde estava.

A rua, por sinal, estava lotada: entregadores de água, garçons, taxistas, porteiros, transeuntes em geral; enfim, toda sorte de gente jovem e saudável, que ou fingiam que a mulher era invisível, ou olhavam com desdém.

Quando cheguei ao lado da anciã compreendi o que estava acontecendo: a bengala da vovozinha tinha caído, jazia ao lado dela, que devido à decrepitude característica de quem atinge idade muito avançada não tinha condições de abaixar-se para apanhar a bengala.

Foi quando tive a epifania de que aquela gente toda que passava ignorando ou desdenhando o sofrimento daquela senhora não sabe o que é ter mãe, não devem portanto ter tido vovós que lhes ensinassem o amor incondicional. Agradeci a Deus por ter tido a oportunidade de conviver minhas duas avós, que me deram o mesmo amor que deram a meus pais, e mais um pouco porque eu era neto (desculpem, Papai e Mamãe, mas a verdade tem que ser dita). Agradeci também por minha mãe estar saudável, ativa, trabalhando e estudando a ponto de dar vergonha no marasmo em que meu irmão e eu nos encontramos, em termos acadêmicos, e não precisar de bengalas para se deslocar.

Ao entender a agonia daquela velhinha, tão frágil, com seu corpo tão judiado pelo tempo, como quem ostenta um trofeu por ter sido mais forte e perene que qualquer desafio da vida, impossibilitada de abaixar quinze centímetros para apanhar uma bengala, apressei o passo, quase corri, para acudir.

Quando peguei a bengala o primeiro impulso era de dizer “espera aí mais dois minutos, véia“, e sair distribuindo bengaladas naqueles infelizes sem mãe, sem anciãos na família e sem perspectiva de um dia chegarem tão longe no tempo quanto aquela mulher chegou. Mas a desgraça deles, a infelicidade por essa condição, já lhes deve ser castigo suficiente, não seria necessário eu infligir-lhes dor física para piorar.

Nos breves instantes em que parei ao lado da idosa, dei meu braço direito para ela se apoiar, e com o esquerdo peguei a bengala e acomodei em sua mãozinha fraca, percebi que ela chorava, enquanto recitava emocionada palavras como:

— Deus te abençoe, meu filho! Eu estava parada fazia mais de meia hora, e ninguém me ajudava, e eu não posso mais me abaixar. Que Deus te abençoe, que Deus te abençõe…

Agradeci a ela pela oportunidade de servir, pedi licença e segui meu rumo. Mas, até agora, não consigo esquecer da cena, e se me marejam os olhos de pensar que se eu não tivesse parado para ajudar, talvez demorasse mais um tempão até aparecer um ser humano normal, descendente de mulheres que ele pudesse enxergar na figura daquela vovozinha.

Compartilhe

Avalie este conteúdo!

Avaliação média: 4.54
Total de Votos: 13
Filhos de Chocadeira

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

Comente!

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.