Eu, “hater”


“Hater,” para quem não está acostumado ao termo, é a palavra em Inglês para designar quem odeia algo ou alguém; literalmente significa “odiador.” Com o passar do tempo seu significado foi se adaptando para quem odeia indiscriminadamente, apenas por odiar.

Você já deve estar por dentro da treta que rolou essa semana entre o telepastor Silas Malafaia e o jornalista Ricardo Boechat, da Band News. Tem milhares de pessoas escrevendo e falando sobre o assunto, tem vídeos com a história completa (até mesmo na resposta do telepastor às supostas acusações está inserido o áudio da fala do Boechat), razões pelas quais não vou incluir aqui nada mais sobre o caso.

Acontece que eu me descobri “hater” porque quando ouvi a reação do Boechat às provocações do Malafaia eu comemorei. Aplaudi quando ouvi o jornalista dizendo: “ô, Malafaia, vai procurar uma rola.” Era algo que eu próprio quereria dizer ao Malafaia, com o mesmo ódio na voz, com a mesma agressividade. Eu mesmo queria dizer ao Malafaia e a todos que ele representa que o ouvido dos outros não é penico.

Na verdade, para ser honesto, eu queria mais: eu queria ter um encontro com cada telepastor, com cada líder que prega baseado na ignorância, com cada um destes que espalham o ódio e a violência, para socar-lhes a traqueia, e durante sua mudez consciente e sufocada dizer-lhes tudo o que o Boechat disse e muito mais, para então fazê-los apagar com um golpe na nuca, já que um mata-leão implicaria contato físico que eu, naturalmente, não desejo ter com esse tipo de gente.

Agora, a ironia é que eu me considero uma boa pessoa. Boa não, uma excelente pessoa (e tenho certeza que minha mãe concorda comigo, se não no “excelente” pelo menos no “boa pessoa”). Tenho ideais, valores e crenças que fazem de mim um ser muito acima destes intolerantes que apedrejam crianças que têm uma fé diferente da minha, destes machistas falocêntricos que desqualificam mulheres em geral e homens homossexuais, que os consideram inferiores, e… OK, você entendeu.

Descobri que eu sou igualzinho a esta gente que eu desprezo. O sentimento que me move é o mesmo ódio que os anima. Eles próprios devem se achar pessoas absolutamente excelentes e beirando a perfeição. Iguais a mim, portanto.

Quando o jornalista diz “vai procurar uma rola” ele está tentando desqualificar o seu “oponente” ao deixar implícito que todo mundo que procura ou gosta de rola é inferior, e não tem o direito de arvorar-se a um debate. Mesmo que ele seja um defensor da igualdade de direitos, que se diga contra homofobia, preconceitos de gênero e preferência sexual, e qualquer outro preconceito, ainda assim ele desqualifica tudo que não seja homem, cisgênero, heterossexual.

Ao aplaudir o discurso raivoso do Boechat contra aquele que é o ícone para tudo o que eu também detesto, endossei seu preconceito, e desqualifiquei automaticamente todas as pessoas que de alguma maneira gostam de rola. E você também, caso tenha tido a mesma reação de identificação com o rompante do radialista.

É claro que todos sabemos que os neopentecostais são pródigos em inventar mentiras, atacar seus desafetos sem escrúpulos e manipular as massas de cordeirinhos que se identificam com seu discurso ensandecido. Também é claro que erro por erro eu prefiro os do Boechat do que os de gente que se acha dona da verdade divina, que manipula para obter o que quer.

Mas isso é só escolher de que lado do ódio eu quero ficar, no fim das contas.

Eu queria neste momento poder dizer que escolho o Amor. Pode ser que eu consiga daqui por diante, porque até então os fatos estão aí para comprovar que ainda não deu certo, que eu ainda sou preconceituoso e intolerante tanto quanto aqueles que me causam repulsa. A diferença é só de que lado do ódio eu resolvi ficar.

E desconfio que com você seja a mesma coisa, será que não?

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Eu, “hater”

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

2 comentários

  • Mario Campello:

    Bastante lógico. Retrata bem a dificuldade em se livrar de preconceitos. O rompante do Boechat mostra que no meio do ódio, o xingamento vem carregado de tudo que nos dizemos contra. Podia ter sido um “filho-da-puta”, mas cairia no mesmo erro. Vale um post sobre “como xingar em dias de repressão a fobias” hehehe

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    • Janio Sarmento:

      Sugestão de pauta anotada. 🙂

      Responder

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