Eu detesto falar ao telefone

26 de abril de 2017 • Por Janio Sarmento, em Crônicas

Sei que não sou o único, mas haja vista a quantidade de gente que não nos compreende — os que usam telefones como computadores realmente portáteis e não um dispositivo para conversar com os outros — faz-se necessário um desabafo na forma de nota de esclarecimento.

Em resumo, o principal motivo pelo qual eu detesto o conceito de telefonema em si é a invasão que representa para quem tem suas atividades, seu raciocínio, seu lazer, sua masturbação mental ou não, interrompidos por uma campainha de telefone com alguém do outro lado demandando atenção.

Como dizia um amigo que já se foi deste mundo podre, o telefone é a maior ferramenta de furar fila que já inventaram. Porque se eu estiver conversando com uma pessoa, pessoalmente ou por escrito, tenho de dar minha máxima atenção a ela; mas aí vem um telefonema para quebrar este acordo de cavalheiros, vem roubar a dedicação que eu deveria estar dando à pessoa na minha frente (ou cujo texto estou lendo e/ou respondendo). É inadmissível.

Isso não significa que eu nunca atenda ao telefone tocando. Se for uma pessoa realmente próxima eu atendo, porque as pessoas realmente próximas sabem que só devem me telefonar em situações extremas. É a mesma coisa de aparecer na minha casa sem avisar que está indo. As pessoas que me conhecem sabem que precisam combinar comigo antes ou vão dar de cara na porta — mesmo que eu esteja em casa dificilmente sairei de onde estou para verificar por que tocam a campainha.

A situação fica ainda mais crítica quando a pessoa quer telefonar para propor algum tipo de negócio.

Sou da opinião de que se uma ideia pode ser expressa por palavras então ela pode perfeitamente ser exposta por escrito. Se a ideia precisa de imagens para ser transmitida, é para isso que existem as câmeras dos telefones modernos, bem como outros dispositivos de digitalização que tornam totalmente desnecessário que eu pare o que estiver fazendo para dar atenção a uma proposta que, vejam só, não vai ter nenhum registro escrito posterior caso eu queira revisar algum ponto.

É claro que os defensores do telefonema para qualquer coisa vão procurar argumentos falaciosos para se justificar, tiranizando aqueles que como eu preferem o texto. O principal argumento é de que eles querem a “emoção” do interlocutor, querem ouvir a voz, etc. De minha parte só posso dizer que, a menos que a pessoa e eu estejamos namorando, a última coisa que eu quero é qualquer tipo de emoção influenciando respostas e decisões que devem ser absolutamente racionais.

Não que eu seja um monstro insensível, bem ao contrário. Cansei de ser passado para trás por cair em chantagens baratas de gente que usa a suposta situação dos filhos para me comover e obter algum tipo de vantagem; de gente que não tem nada a oferecer em uma proposta comercial, mas viola um espaço de confiança comigo ao usar de argumentos meramente emocionais para me fazer aceitar alguma coisa em que qualquer mente minimamente racional enxergaria o engodo logo de cara.

Assim, da próxima vez que eu recusar um telefonema seu considere que é meu direito preferir o que é melhor para mim. Até porque se eu tiver que tratar de negócios por qualquer meio que não inclua uma descrição textual do que estiver sendo proposto eu vou pensar é que a pessoa do outro lado está querendo me engambelar, ou usar truques bestas para desviar minha atenção do que é necessário, o que me leva a um espaço de — para usar um eufemismo — ódio profundo. E ninguém vai querer interagir comigo assim, nem mesmo eu.

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