Espírita reacionário a favor da violência? Tem que ver isso aí!


Dizer que os reacionários em geral têm atitudes ridículas é de uma redundância besta. Mas não há outro jeito de introduzir este assunto sem dizer o quão ridícula é uma pessoa que se diz espírita defendendo discursos rasos e obtusos como “bandido bom é bandido morto”, endossando propostas de punição como castração química e pena de morte.

Qualquer pessoa que se diga esclarecida já deveria tomar muito cuidado ao papagaiar certos clichês. Mas para alguém que se diz espírita a responsabilidade é muito maior, e a incoerência se torna ainda mais gritante.

Quem sou eu para falar de espiritismo?

Durante vários anos fui frequentador e estudioso do Kardecismo, doutrina criada — ou codificada, como preferem os kardecistas — por Allan Kardec (codinome do professor, educador, tradutor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail). Perdi a conta das vezes em que palestrei em diversas casas espíritas do Rio Grande do Sul, até o ponto em que decidi admitir que havia “alguma coisa” no espiritismo que me incomodava.

Essa “coisa” que me incomodava foi um padrão que se repete em muitas religiões (razão pela qual abandonei todas, mantendo delas apenas os conceitos coerentes com meu próprio sistema de crenças): uma tolerância que beira o incentivo ao sofrimento, à ideia de que o indivíduo precisa sofrer aqui na Terra para encontrar a felicidade quando for para o céu. No caso dos espíritas é ainda mais marcante essa apologia disfarçada à dor; basta ver que há importantes obras da sua literatura que trata de espíritos evoluídos que sofrem na Terra, sofrem no plano espiritual, e escolhem espontaneamente voltar para cá para continuar sofrendo em nome do amor. É meio demais para mim.

O que prega o espiritismo

De maneira geral o espiritismo prega o Amor, e a transformação da alma pela manifestação do Amor na forma do arrependimento, do perdão, e enquanto isso não vem naturalmente o espírito fica sujeito às leis de causa e efeito, também conhecidas como Karma (conceito que o Professor Rivail “emprestou” brilhantemente das religiões orientais derivadas ou aparentadas do Budismo).

O espiritismo não prega a tortura, a vingança, muito menos o assassinato como forma de… bem, como forma de nada. São práticas abominadas pelo espiritismo (assim como suicídio, eutanásia e aborto).

Os reacionários espíritas

O que tenho visto de reaças espíritas ultimamente não está no gibi. Pessoas que num momento qualquer estão tecendo loas aos benefícios do passe, à importância da reforma íntima, e discutindo o tamanho e o formato da aura alheias, em outro estão comemorando linchamento de ladrões de galinha, sugerindo que se cortem as mãos de quem rouba, a língua de quem calunia e a piroca de quem estupra.

Num momento fingem ser anjos quase iluminados, no outro regozijam-se em testemunhar e advogar a favor de violência aplicada. Eu particularmente acho que eles dizem que apoiam maldades contra delinquentes apenas para relativizar sua sanha sanguinária, seu desejo por ver semelhantes em sofrimento extremo, ou mesmo alijados da própria vida.

Essas pessoas também esquecem na velocidade da luz de tudo aquilo que estudam nas casas e livros espíritas: da necessidade de educar os ignorantes, de proteger toda forma de vida, e da importância do perdão.

Hipócritas! Isso que são!

“Há que haver escândalos, mas ai daquele por quem venham os escândalos”

Tenho três citações do Cristo que me são favoritas, escritas livremente abaixo:

  • Há que haver escândalos, mas ai daquele por quem venham os escândalos.
  • Se tua vista esquerda te escandaliza, arranca-a fora.
  • Não saiba tua mão esquerda da caridade que praticas com a mão direita.

A primeira pode ser interpretada como “esteja preparado para pagar o preço pelas suas escolhas”.

A segunda é que o sujeito não pode ser burro de seguir fazendo algo que fere suas próprias crenças. É a mesma coisa de servir a dois senhores, que muita gente ainda não entendeu.

A terceira fala da necessidade de não se fazer propaganda do bem que se pratica por outrem, ou o que deveria ter sido caridade (uma manifestação de amor incondicional e universal) acaba virando mero comércio.

O que os espíritas reaças de maneira geral não percebem é que quando sugerem alguma validade a expedientes como a pena de morte (pior ainda quando são a favor de execução sumária, sem chance de sequer o suposto criminoso se defender) estão servindo a dois senhores, estão fazendo com que sua vista causa escândalos, e é por eles mesmos, portanto, que os escândalos estão vindo.

É triste.

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Espírita reacionário a favor da violência? Tem que ver isso aí!

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

5 comentários

  • Israel Cefrin:

    Jânio, pior que essa tua narrativa não é exclusividade do espiritismo. Tenho pensado seriamente sobre o que creio e o meio em que estou inserido.
    Fico numa encruzilhada vendo ensinos de Cristo sendo distorcidos por conta de fanatismos raivosos. Mas o que mais me incomoda é concordar com aqueles que fui doutrinado a discordar durante uma vida toda…

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    • Janio Sarmento:

      Acho que vou instalar um plugin de “like”, só pra poder curtir esse teu comentário.

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  • Vania Marin:

    Poxa, você colocou exatamente o que penso. Também fui uma espírita atuante. Mas me desencantei com a religião justamente pelos mesmos motivos que os seus. O amor, que deveria ser incondicional, passa a ter limites entre o certo e o errado dentro do conceito de cada um. Pessoas e trabalhadores são convidados a se retirarem da casa espírita por não seguirem padrões impostos pela sociedade. Cristo não está em nós, nem ao nosso lado, ele está lá longe em um lugar inatingível, portanto “bandido bom é bandido morto”. Triste isso, muito triste. Mas enfim, vou continuar buscando a felicidade aqui dentro de mim mesma, que é onde eu acredito onde Deus está. Grata pelo artigo.

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    • Janio Sarmento:

      Eu é que agradeço. Ultimamente anda tão raro ser compreendido que seu comentário vem como um abraço quente numa noite fria.

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  • Ricardo:

    Critica feita com correção. Isso incomoda a mim também. Viver vertendo lágrimas voluntariamente me soa surreal. Tirando o fato de que a felicidade ainda é mesclada neste mundo, isso dito na codificação, ainda assim, na mesma codificação se observa o fato de que a busca pela felicidade é um direito inalienável do homem. Penso que é uma visão torta aquela que diz “como posso sorrir quando tantos choram?”. Parece que me é negado o direito de ter momentos leves em família ou mesmo sozinho sem me sentir culpado por isso. Mas tenho convicção de que essa não é uma visão geral espírita. Assisti via youtube ou ao vivo inúmeras palestras do Divaldo por exemplo e ele sempre passa a mensagem espírita de forma jovial, alegre, engraçada mesmo. Exalta mesmo a vida e a alegria de viver!

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