Discurso de Ódio, Opinião e Valores

Três coisas distintas que muitos insistem em confundir para justificar o injustificável.


Antes de qualquer coisa, uma explicação para a foto que ilustra este texto: assim como a Penelope Garcia fica vendo vídeos e fotos de bebês panda para compensar os horrores que tem que presenciar no trabalho, achei que seria interessante ter uma imagem de algo puro e inocente para amenizar um assunto tão indigesto quanto o que vou abordar.

A menos que você tenha acabado de chegar no planeta — e se for o caso volte imediatamente para casa, conselho de amigo — você já sabe que o Brasil está vivendo uma das piores crises políticas e institucionais da História moderna. As consequências disso são evidentes para qualquer um que não seja um privilegiado pela situação atual: inflação, desemprego, dificuldades mil.

Mas há algo ainda pior acontecendo, disfarçado de “politização” das massas: discursos e atitudes de ódio cujo gatilho pode ser qualquer coisa, como a cor da camiseta que a outra pessoa está vestindo, ou o fato de ela escolher participar desta, daquela ou de nenhuma manifestação.

E o pior do pior é que este ódio todo, embora pretensamente orientado contra a classe política, estaria aí do mesmo jeito por outros motivos. Sempre esteve. Hoje as pessoas têm medo de sair na rua com uma camiseta vermelha, mas antes as pessoas tinham medo (eu tinha e tenho) de passar perto de gente com camisa de time de futebol. As torcidas organizadas que espancam, torturam e matam em paraça pública não são melhores nem piores do que os manifestantes violentos que querem espancar e matar (seja para acabar com a raça de um “comunista”, seja para livrar o mundo de pelo menos um “coxinha”).

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Futebol é esporte, amor e alegria.

E isso não vai melhorar. Não há movimento coletivo que ande em direção à paz e à tolerância, rumo à aceitação das diferenças. Porque o ser humano em essência é belicoso, egoísta e covarde. Algumas pessoas usam o cérebro para algo mais do que recheio da caixa craniana, e num exercício de empatia e evolução pessoal escolhem não dar vazão a este tipo de comportamento. A maioria é mero fantoche nas mãos da ignorância e não move uma palha para deixar de ser cuzona.

Correção — meu amigo de fé, meu irmão, camarada Darlou lembrou de algo que vale a pena citar aqui: só não concordo que “o ser humano em essência é belicoso, egoísta e covarde.” Em essência o ser humano é luz, só é assim quando quer negar sua natureza divina!

Quando um integrante desta maioria está sozinho frente a frente com outra pessoa normalmente ele não deixa transparecer o quão ignorante é. O mesmo instinto que torna a humanidade covarde e raivosa é o que ensinou o mimetismo: misturar-se com o ambiente para ser mais aceito. E assim o covarde finge ser o que não é, porque acha que se entrar em conflito direto com outra pessoa poderá ser ele a ser trucidado.

Já quando está em grupo um mané desses se transforma. Toda a sua covardia reprimida, todos os traumas de infância (normalmente cuzões são filhos de outros cuzões que perpetuam a cuzonice criando vítimas como eles próprios foram, embora haja exceções para bem ou para mal), toda a incompetência intelectual e emocional, toda a incapacidade de tornar-se melhor do que o lixo que ele julga ser, tudo isso vem à tona na forma de xingamento, de ódio, de agressão verbal ou física.

Alguns cuzões desses conseguem se sobressair, e acabam virando representantes da massa cuzona. Não vou citar nomes, porque não quero que confundam estas linhas com qualquer tipo de acusação. Tudo que escrevo é só constatação.

Tergiversações à parte, alguns cuzões se tornam líderes da massa cuzona ao dizer aberta e publicamente o que esta prefere calar por medo de parecer o que é (ignorante e abjeta). Como não tenho “líderes” que me representam, apenas pares, não sei como deve ser bom para um zumbi desses encontrar alguém que diga sem medo o que ele pensa. Mas deve ser bom, haja vista o fato de eles se sentirem empoderados e poderem extravasar o ódio e a ira que carregam consigo desde que corromperam sua inocência.

Opinião

É um direito que qualquer ser vivente tem o de expressar sua opinião. Não só os seres humanos pensantes, nem só os pensantes e os idiotas raivosos lambe-saco dos deputados pastores: lá na minha mãe tem um monte de gatos, e do jeito deles eles expressam sua opinião e são respeitados. Exemplo: a Fia, a gata do meu irmão, não gosta muito de colo, e ela deixa isso claro; então ninguém fica pegando a Fia no colo; já o Zikavirus, ao contrário, adora colo, adora carinho, e tem a prioridade quando alguém quer brincar com os felinos. Mas, novamente, tergiverso.

Opinião é algo que diz respeito ao que as pessoas acham, porém sem que isso implique desrespeitar a integridade física ou moral das outras pessoas.

Exemplos de opinião:

  • eu gosto mais de iOS do que de Android;
  • acho que o Ghost é melhor que o WordPress para blogar (mas continuo com WordPress aqui e num monte de lugares);
  • prefiro Bash a qualquer outra linguagem de programação;
  • acho que futebol é chato para caralho.

Discurso de ódio

Há quem se esconda atrás do argumento da “liberdade de expressão” para incitar ódio, violência e intolerância. São falas às quais já as pessoas estão habituadas (mesmo as não-cuzonas), tais como:

  • “Não tenho nada contra tal minoria mas…”
  • “Só podia ser {preto|viado|mulher|gordo|pobre|etc}.”

Isso não é opinião, e embora quem as profira normalmente não se dê conta elas implicam uma diminuição, logo uma agressão moral, a quem é usado como “parâmetro”.

Há casos piores. Por exemplo:

  • quando eu digo que todo torcedor de futebol é bandido (não digo mais, e quando penso eu mesmo pergunto por que estou fazendo questão de ser cuzão);
  • bandido bom é bandido morto;
  • homossexualidade é coisa de quem não apanhou o suficiente;
  • mulher só é estuprada porque age feito vagabunda;
  • filhos bem educados não namoram mulheres negras.

E por aí vai.

Isso é tudo discurso de ódio, não é opinião. É todo um sistema de pensamento que implica agredir ou justificar a agressão contra pessoas que o cuzão considera inferiores.

Valores morais

Agora, uma coisa que regula o que toda e qualquer pessoa diz e faz são seus valores morais. Mesmo que por um tempo os cuzões disfarcem seus valores, como falei no começo, assim que eles encontram outros cuzões que têm valores iguais eles não resistem a promover uma diarreia metafórica generalizada.

Outro fato inegável é que a característica humana da socialização faz com que pessoas com valores semelhantes se encontrem e passem a relacionar-se entre si. Os cuzões se encontram para agredir e vomitar ódio, as pessoas ponderadas se encontram para trocar ideias e melhorarem a si mesmas enxergando-se no outro.

Quando uma pessoa vem para o meu lado endossando discurso de ódio dizendo que é a opinião dela, eu faço tudo que puder para bloqueá-la da minha vida. Porque os meus valores morais me impedem de apoiar o ódio gratuito, ou o desprezo por outras pessoas.

Quando alguém vem me dizer que um líder cuzão desses “foi mal interpretado” em seu discurso de ódio eu procuro me afastar, porque sei que os valores morais da pessoa que defende o indefensável implicam o ódio e o desrespeito.

Prefiro que os cuzões me rotulem do que quiserem. Afinal, se alguém quiser me dar um presente e eu não aceitar, o presente continua sendo desse alguém. O mesmo com os rótulos. Podem chamar do que quiserem, que eu sei que cuzão eu não sou, e o fato de eu não dar trela para cuzões não é fugir de debate (até porque cuzão não debate, tampouco), mas sim respeitar os meus valores como ser humano, e dos que têm valores compatíveis com os meus.

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Discurso de Ódio, Opinião e Valores

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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