“Desezo dzi Matar”


Não sei mais o que me fez lembrar disso, mas no segundo grau eu tinha um colega que era, pelo menos pensava-se isso, bichinha: magrinho, andar “gracioso” (na falta de adjetivo mais adequado), afeminado mesmo, carregava os livros colados ao peito (parecia aquela guria da propaganda do primeiro sutiã), ao invés de segurar displiscentemente com dois dedos uma pasta qualquer, como faziam os caras na época; além disso ele tinha uma voz um tanto aguda e com baixo volume, e falava os “esses” entredentes, o que lhe rendeu o apelido de Duzentz-e-Vintz. “Essa tomada é duzentz e vintz voltz, professor?”

Havia uns poucos que não rechaçavam esse colega, notadamente os “freakers” da turma: ele era o viadinho, eu era o gordo, o Choco era o negão, o Cinco Pilas (outra hora conto esse história) era o deficiente físico. Havia mais uns dois ou três que eram, simplesmente, gente boa, e não ligavam para os preconceitos dos demais.

Um dia, já no final do ano, época em que o estresse chega aos piores níveis, o Duzentz-e-Vintz estava chegando ao laboratório de eletrônica, com seus livros e cadernos contra o peito, quando um cara gritou de lá: “olha o viadinho chegando”. O cara era o *****, que era o maior e mais besta dos alunos da escola, que abusava do fato de ser muito mais forte que todo mundo, e espancava mesmo.

— Olha o viadinho chegando!

— Quem é que é “viadzinho” aqui, que eu não tô “entendendzo”?

— Tu mesmo, viado! Frutinha! Bicha! Puto!

— Ah, é? Então peraí que vou te mostrar quem é “viadzinho”.

O Duzentz-e-Vintz entregou seu material a um colega que estava próximo, sem nem olhar nos olhos do cara, nem dizer “obrigadzo”. Desceu de onde estava e foi ao encontro do *****, bem no meio da quadra de vôlei, e o que se seguiu é difícil de descrever, pois qualquer verbalização embota o brilho de tão magnífica cena.

Isso porque ninguém sabia que já havia muitos anos que o suposto viadinho treinava artes marciais, era faixa preta de Kung-Fu. Era muito bonito ver aquele corpo franzino, delicado, quase feminino, enchendo de chutes e porradas aquela besta acéfala do *****. Para usar uma expressão tecnicamente mais correta devo dizer: o Duzentz-e-Vintz cagou o otário a pau.

Exceto por dois ou três babacas que queriam apanhar junto com o *****, digo, que queriam defendê-lo (e, obviamente, foram devidamente paralisados pela massa estudantil que assistia o massacre), ninguém moveu uma palha para separar a briga. Até mesmo alguns professores que assistiam de longe o embate ficaram absolutamente neutros.

O ano terminou em seguida, eu mudei de cidade, e nunca mais ouvi falar no Duzentz-e-Vintz. Já o ***** eu encontrei há uns cinco anos: fui passar um fim de semana na serra, e a pousada em que fiz reservas sem conhecer era de propriedade do *****. E de seu namorado.

UPDATE: resolvi trocar o nome da besta por *****. Só agora caiu a ficha que sua homossexualidade não seja uma coisa tão bem aceita, razão pela qual é melhor não expor tanto assim o rapaz.

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“Desezo dzi Matar”

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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