Crônica da filhadaputice das vítimas profissionais


Sexta-feira, dia 13, seis e pouco da tarde, supermercado Ultra da Rua do Catete, Rio de Janeiro. Até pelo dia da semana e horário a loja estava lotada, as filas para os caixas gigantescas, e a paciência das pessoas bastante escassa. A minha, por conta do dia horroroso que tivera, não era melhor que a média.

Depois de longos minutos de espera, finalmente eu aguardava minha vez de passar no caixa, com nada mais, tampouco nada menos, que quatro itens na cestinha.

Foi quando apareceu aquela mulher, do nada, fazendo cara de vaca atolada (não a comida, o bicho implorando socorro), fazendo uma vozinha de gata desmilinguida, perguntando:

— É só um fóshforo, cê simpohta deu passá na frente?

– Pausa para reflexão –

As pessoas têm um sério problema de falta de senso do ridículo, de espelho em casa e de vergonha na cara. Não dá para contar os motivos que usam para se fazer de vítimas e tentar passar a perna nos outros: se são viados, são coitadinhos porque são viados; se são héteros, são discriminados porque são héteros; se gordos, são discriminados pela gordura; se magros, segregados pela magreza; se mulheres, marginalizadas por serem o sexo frágil; se homens, humilhados por terem pênis; enfim, qualquer merda é motivo para os filhos da puta da vez se fazerem de vítimas.

– Fim da pausa para reflexão –

— Olha, senhora, eu me importo, sim, de a senhora passar na minha frente, porque eu fiquei nessa fila quase uma hora para pagar quatro itens. Mas mesmo que eu não me importasse daqui eu conto pelo menos 15 pessoas atrás de mim. Se eu deixar a senhora passar na minha frente, estarei sendo filho da puta comigo e com essas 15 pessoas que não furaram a fila nunca. Fala com eles, se todos concordarem eu concordo também.

— Ah, fala sério, maluco, tu num queh que eu vá de pessoa em pessoa pehguntano puh causa duma caixa de fóshforo, né?

— Se a senhora fosse a última da fila, o que a senhora gostaria que fizessem?

— Aí, qué sabê? Mishtressei, não vô levá pohcaria ninhuma.

— Ótimo, assim a senhora não fica com essas frescuras de querer furar a minha fila.

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Crônica da filhadaputice das vítimas profissionais

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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