Como ser uma pessoa feliz

10 de junho de 2011 • Por Janio Sarmento, em Metaposts, Só coisa boa
Foto de Luciano de Crescenzo

Uma coisa que talvez não atine quem me lê (principalmente de maneira esporádica) é que se precisarem citar pelo menos uma pessoa que se considere feliz, tal posso ser eu. E agora, você tem duas escolhas: trocar de página e escolher coisa mais interessante para ler, ou continuar a leitura para descobrir o que me leva a ter essa noção na vida.

E já que você decidiu continuar mais um parágrafo, vamos então ao básico. Vale lembrar que este é um blog pessoal, e tudo o que você vier a ler doravante (como tudo o que já possa ter lido aqui) tem a característica de ser… pessoal! É só minha opinião, nada mais que isso, sem nenhuma pretensão de tornar-se outra coisa.

Felicidade: o que é e o que não é?

É difícil definir felicidade com palavras. Qualquer tentativa vai falhar miseravelmente, mas não dá para ser feliz sem tentar.

Basicamente, felicidade é um estado de bem estar íntimo e de prazer.

Se você conversar com diferentes pessoas que acham que não são felizes e pedir a elas para dizer por que não o são, certamente vão dizer que é porque falta alguma coisa: dinheiro, namorada, beleza, reconhecimento, carro do ano… Tudo besteira. Tudo isso é apenas desculpa para não ser feliz, apenas um comportamento para corroborar a escolha (quero crer que inconsciente) de ser infeliz.

Felicidade é aquilo que você encontra quando passa a se conhecer, a conhecer seus anseios, necessidades, desejos, e a respeitar tudo isso, colocando-se pessoalmente à frente de qualquer outro interesse.

Nem sempre eu fui feliz

A expressão “era feliz e não sabia” encerra em si um erro conceitual: uma pessoa que não se sabe feliz, não é feliz.

Aos vinte anos de idade eu não era feliz, principalmente porque eu não sabia disso. Porque eu não me conhecia. Não sabia o que queria da vida. Achava que precisava me adequar a algum modelo pronto de felicidade, e que qualquer sentimento fora desse “padrão” fosse me arruinar como ser humano — e arruinava mesmo, porque era isso em que eu acreditava.

E nem precisamos complicar, vejamos.

  • Eu sempre detestei cumprir horário, bater cartão, seguir ordens de alguém que provavelmente sabe menos do que eu em muitos aspectos (mas sabe muito mais em outros, afinal ninguém é chefe à toa).
  • Enquanto para a maioria projeto de vida é comprar uma casa, um carro, casar e procriar (não importa a ordem), eu adoeço só de pensar em passar o resto da minha vida em um único lugar, fazendo as mesmas coisas.
  • Todo mundo diz que “há pessoas que passam pela vida da gente”, com um certo desdém por estas pessoas; pois eu sou alguém que passo pelas vidas alheias, e de tempos em tempos — períodos normalmente muito curtos para a mentalidade média — eu preciso de renovação.

Haveria mil exemplos mais para citar, mas por aí já é possível compreender o que quero dizer, imagino.

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Decidir ser feliz custa caro

Aprendi muito com o Dr. Austro Queiroz, e de todos os seus ensinamentos, se eu tivesse que escolher o mais importante (ou o meu favorito dos seus livros) seria o Perca o Medo de Decidir (link para baixar em formato .doc, em termos práticos universal). Nele Dr. Austro ensina que o pior medo que uma pessoa pode ter é o de decidir, porque depois que uma decisão é realmente tomada, ela é soberana. Entretanto, do ponto de vista do ego, decidir é sinônimo de perder. Exemplifiquemos.

Estou com vontade de comer sushi, mas também estou com vontade de comer churrasco. Se eu decidir comer sushi, vou perder a oportunidade de comer churrasco, e vice-versa. Então, para não perder o churrasco — que não tem — nem o sushi — que tampouco tem — o sujeito fica se boicotando e adiando uma decisão. Mas, no momento em que a decisão é feita, aí ela é definitiva, soberana e libertadora.

O exemplo acima é um tanto bobo, mas quando você começa a analisar o que falta para ser feliz, e por que não toma as decisões que vão contribuir para a construção da felicidade, começa também a encarar escolhas muito mais difíceis. São perdas “maiores” porque maior é a dificuldade de compreender os medos e inseguranças, e relativizar a importância de cada escolha.

As escolhas óbvias em favor da felicidade

Ainda no mesmo assunto das escolhas, as mais óbvias que se me ocorrem, que experimentei na carne (e no espírito, principalmente), e que podem ser genéricas, incluem a lista abaixo.

Não ter que agradar o tempo inteiro

É a mais libertadoras das escolhas, e por isso eu tinha que listá-la primeiro!

Aprendi com um Venerável Mestre um mantra que encerra sabedoria e poder: não sou nota de cem para agradar todo mundo.

É fato que ninguém consegue agradar o tempo inteiro, e para agradar alguém às vezes temos de desagradar outrem. Quando desisti de ser “agradão”, e passei a me respeitar acima de tudo, experimentei um acréscimo de autoestima e de felicidade de tamanha amplitude que fizeram com que essa escolha fosse o maior divisor de águas em minha caminhada.

Mas o preço, para quem está viciado em agradar o tempo todo, num primeiro momento parece alto: aqueles acostumados a tirar proveito da sua pequenez pessoal e falta de respeito próprio vão estranhar sua mudança de atitude, vão hostilizar e chantagear para ver se conseguem fazer com que você volte a ser o otário de antes. Contudo, se você conseguir superar essa etapa logo em seguida vai encontrar um tesouro muito valioso, que são as pessoas que vão se aproximar de você pelo que você verdadeiramente é, e que não vão exigir que você se viole em nome do prazer delas.

Permitir-se correr o risco de falhar

O perfeccionismo é um dos grandes entraves para a felicidade. O medo de falhar é um dos maiores obstáculos que as pessoas criam para se interpor entre si mesmas e a felicidade. Têm tanto medo das possíveis reprimendas que um fracasso (ou mero erro) possa implicar, que se impedem de tentar, e com isso nunca chegam ao próximo item da minha lista.

Permitir-se trabalhar em função de sua missão pessoal

Tive empregos bons, e apesar da idade ainda recebo com uma certa frequência propostas de trabalho. Não faz muito recebi uma que implicava salário de cinco dígitos mensais, e eu recusei. Jamais vou abrir mão de trabalhar na PortoFácil, porque é nela que eu realizo minha missão pessoal.

A maioria das pessoas acha que sua missão tem que ser como a do personagem do Will Smith em “A Busca pela Felicidade”, em que ele é uma espécie de Joseph Climber que só consegue se dar bem três segundos antes dos créditos finais.

Eu não nasci para ser pai de família, criar e educar filhos, nada disso. Porém, como esta era a missão da vida do meu pai, que ele escolheu por vontade própria, e desempenhava com toda a força e alegria de seu ser, eu achava que tinha que fazer igual.

Parar de me enganar, achando que ser feliz era ter uma vida idêntica à de meu pai foi outro passo crucial em direção a quem sou hoje, que posso afirmar por escrito que sou um homem feliz.

Permitir-se usar o dinheiro a seu favor em vez de ser escravo dele

Muita gente se ilude, pensando que se tiver dinheiro a felicidade estará garantida. Jocosamente dizem que “dinheiro não traz felicidade, mas paga o frete”, ou então “dinheiro não traz felicidade, dê-me todo o seu e viva feliz”.

A ilusão de poder que se criou em torno do dinheiro é uma excelente ferramenta de alienação para continuar usando as pessoas como massa de manobra: elas ficam cativas de um sistema financeiro que só existe para drenar todos os recursos de quem tem menos; para criar escravos que vão dar o sangue para o “sistema” na ilusão de que estão fazendo algo de bom por si. O consumismo impera como regime vigente, e poucos conseguem desenvolver uma consciência de que há valores muito mais importantes do que acumular riquezas — e normalmente só os ricos conseguem, os pobres passam a vida suando e chorando sangue em nome de “chegar lá”.

Reconhecer que o mercado vai sempre incentivar o consumismo como ideal de vida, que aquele objeto de desejo recém comprado em poucas semanas estará ultrapassado, e que o dinheiro pode ser usado para movimentar a sociedade, gerar bem estar e qualidade de vida, e não só dar a ilusão temporária e vazia de poder, é extremamente importante para quem deseja realmente ser feliz.

Porque a felicidade está vinculada a valores internos, da alma de cada um, valores eternos; e dinheiro é apenas um símbolo físico para a ilusão de poder: temporária, espúria e insustentável. E como tudo o que existe no mundo, deve ser bem usado como ferramenta, só isso.

Permitir-se mudar de ideia

Outro engano muito frequente que vejo nas pessoas que não se consideram felizes é o de pensarem que uma vez que assumam uma posição ela deverá ser mantida até a morte. Bem, isso até é verdade, mas devemos primeiro entrar em outra discussão filosófica para definir o que é a morte.

Como dizia Raul Seixas, “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Não é o mesmo que ser feito bosta na enchente, que muda de direção porque nem tem consciência do que lhe está acontecendo. Mas sim, de saber que quando uma opinião, ideia ou decisão não servem mais, a pessoa tem total direito e legitimidade para, simplesmente, mudar!

A única coisa imutável na vida é que um dia todos iremos morrer (ou já estamos mortos, se formos entrar em outra discussão filosófica, então nem tem por que complicar mesmo). Ideias, pensamentos e paradigmas podem e devem ser mudados, pois é sinal de que o sujeito evoluiu e deixou de ser aquele mesmo que era antes.

Permitir-se ser totalmente livre

Tudo isso que estou dizendo talvez possa ser resumido — ao menos para mim, de acordo com os meus valores — em ser totalmente livre.

Liberdade de ir e vir, de ousar, de experimentar, de gostar ou desgostar, de mudar — de cidade, de estado, de país, de opinião, de corte de cabelo, de horário de trabalhar, de leiaute do blog.

Qualquer coisa que seja limitador não me serve: religiões, crenças, partidos políticos, hábitos, costumes, relacionamentos.

Preciso do novo, necessito da novidade para sentir-me vivo. Sem isso, não passo de um zumbi, e eu já decidi que o que quero nessa vida é ser eu mesmo, cada dia mais, e honrar a dádiva de estar vivo ao viver cada dia dentro da mais total liberdade, de acordo com minhas escolhas e decisões.

Respeitar-se sempre, o tempo todo

Foto de Luciano de CrescenzoPor fim, creio que a escolha importantíssima que não deve faltar a ninguém que queira ser feliz é a de respeitar-se o tempo todo, sem exceções. Pode parecer que não, mas este é um aprendizado difícil, que requer autoconhecimento e coragem. É necessário separar as crenças que são incutidas em nossas cabeças dos valores que nos são legítimos.

Até porque só respeita o outro quem se respeita em primeiro lugar, e ninguém pode ser feliz sozinho nesse mundo. É como diz o escritor, pensador, ator, diretor e engenheiro napolitano Luciano de Crescenzo (foto): somos todos anjos de uma asa só, e somente abraçados é que podemos voar.

Ser feliz todos os dias

Dentre as muitas pessoas que encontrei na vida, a Nospheratt acabou se tornando uma espécie de irmã do coração: amiga, confidente, e mestra. Entre as muitas coisas geniais que ela já me ensinou destaco uma.

Não é possível ser feliz o tempo todo, mas é possível ser feliz todos os dias.

É a mais pura verdade, e a síntese máxima do que eu gostaria de passar nesse texto (de 2.000 palavras, quando o meu normal é 400). No decorrer do dia haverá, com certeza, a alternância enter momentos felizes e tristes (ou de desespero, ou de raiva, ou de seja lá o que for).

O importante é saber que tudo é impermanente nesse mundo, e como tal devemos considerar os momentos de dor. Assim como os de felicidade, mas não devemos nunca esquecer de ser feliz todos os dias, nem que seja por alguns minutos.

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