Como magoar uma pessoa querida


Se você quiser magoar alguém que você ame, de uma maneira tal que tudo que você diga pareça apenas desculpa esfarrapada, pode dar uma avaliada no que vou contar abaixo. Pode ser que algo lhe seja de valia.

Essa história começa no início de janeiro, com um telefonema a cobrar para o meu telefone celular, de um número completamente estranho. Tenho por hábito não aceitar ligações a cobrar (exceto seja de alguém conhecido ou próximo), e por isso desliguei sem nem atender.

Não satisfeita com minha recusa a pessoa ficou insistindo, e ligou pelo menos mais umas dez vezes. Isso me fez pensar que pudesse ser alguém conhecido em apuros, e resolvi atender. Atendi, e era uma guria com voz de piranha rindo do outro lado, que não dizia coisa com coisa.

Tentei ligar novamente, e quem atendeu foi a caixa postal. Deixei uma mensagem perguntando quem era e o que queria comigo. A desgraçada então começou a ligar feito uma desesperada, atazanando minha vida, a toda hora, de madrugada, de tarde, de noite, de manhã.

Um dia consegui ligar, e quem atendeu foi um cara. Deixei que o espírito do ogro baixasse em mim (o que não é difícil) e perguntei de quem era o telefone; quando o cara disse que era da namorada, deixei o fel fluir.

“Cara, toma cuidado com essa vagabunda, não transa com ela sem camisinha, porque ela passa o dia inteiro ligando para mim e para todos os meus amigos, querendo dar para gente, querendo fazer gang-bang, dizendo que o sonho dela é morrer engasgada com litros de sêmen fresco.”

Nos dias seguintes não houve telefonemas, e eu bem que tentei um jeito de bloquear este número, mas nem a minha operadora (Tim) nem a dela (Claro) sequer se interessaram pelo meu caso.

A vaca ligou mais algumas vezes, mas sempre de outros números, o que me fez pensar seriamente em assistir os filmes do Paul Kersey como se fossem tutoriais ou didáticos.

Uma noite, ou melhor, uma madrugada dessas, meu celular tocou. Acordei aflito para atender, olhei o número e não reconheci. Atendi e ninguém falava nada. Considerando o drama que eu estava vivendo com essa piranha, o que eu poderia pensar? Liguei de volta e ao ser atendido pela secretária eletrônica xinguei a piranha, mandei que enfiasse o celular lá naquele lugar com o vibra-call ativado, para depois ligar para si mesma a partir do orelhão, se não tinha coisa melhor a fazer.

É. Só que não era a piranha. Era uma amiga muito querida, a Ana, que estava justamente passando por um momento de dificuldade, e que por estar usando o celular como lanterna acabou ligando sem querer para o meu número.

Viram como é fácil magoar alguém, e passar por FDP sem o ser?

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Como magoar uma pessoa querida

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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