Como enfrentar o bullying na escola


O J. Noronha escreveu um post com o mesmo título do meu, com algumas verdades que os românticos teimam em achar que são ridículas. Não são. Só tem um jeito de lidar com o bullying na escola. Como peguei gosto nesse lance de escrever contos, vou fazer um flashback para os tempos de escola do personagem recorrente dos meus contos, o João (zinho, nesse caso).

Joãozinho era como João se chamava no tempo de escola. Não que ele fosse realmente pequeno, mas seus pais achavam que ele era.

Joãozinho era inteligente, culto, tirava nota máxima sempre. Vestia-se de uma maneira que os outros consideravam ridícula (mas ele não entendia isso), não se relacionava muito bem com os colegas porque não achava nenhum ponto em comum dos seus gostos com os deles. Para piorar, Joãozinho era gordo e detestava atividades que implicassem contato físico com outros meninos. Ele preferia ficar se esfregando nas meninas, sendo paparicado por elas, mas os outros meninos achavam que isso era coisa de frutinha.

Joãozinho estudou dois anos numa escola pública, sendo saco de pancada de vileiros que tinham inveja de suas notas, ou do fato de ele viver rodeado de meninas que vomitavam quando viam os seus agressores. Um dia, no final do segundo ano nessa escola, ele viu um de seus dois amigos (de um universo de mais de quinhentos adolescentes) ser agredido a ponto de ir para o hospital e levar pontos, então achou que a coisa estava mesmo ficando perigosa e foi falar com seus pais, pedindo para mudar de escola. Os pais acederam.

No ano seguinte Joãozinho estava em uma escola particular, quatro vezes maior que a outra. No primeiro dia fez seus dois melhores amigos (amigos de uma vida toda, até hoje são amigos de João) que talvez não por acaso eram os dois sacos de pancada da escola já havia anos, e os dois mais esquisitos: um era homossexual, e outro era o típico nerd, com óculos fundo de garrafa, roupas “estranhas”, humor ácido e inteligente.

Mas Joãozinho passou a ser o saco de pancadas, porque naquela escola todo mundo era filho de médico, advogado, dentista, empresário, e o pai do Joãozinho era pobre. Joãozinho não deveria pertencer àquele lugar.

Mas os agressores almofadinhas não eram nada comparados aos agressores vileiros da escola pública, e Joãozinho tirava de letra: escondia-se dos agressores, despistava-os, passava sebo nas canelas e corria mais que todos para manter o couro livre de pancada (o que até fazia bem para o sistema circulatório).

Um dia os agressores almofadinhas de sempre vieram cheios de educação convidar Joãozinho para jogar videogame no período livre ao fim da manhã. Ou melhor: jogar Odissey, que era muito melhor que o Atari (tipo um Betamax dos videogames antigos). Enquanto pensava que finalmente os almofadinhas estavam finalmente rendendo-se a suas qualidades como ser humano, podia sentir nos dedos a textura do controle analógico que faria o bonequinho do Q-Bert andar feito doido pela tela da tevê. Aceitou.

Quando estavam bastante longe da escola Joãozinho entendeu que se tivesse um amigo chamado Bino seria a hora de avisar que era uma cilada: uns trinta ou quarenta adolescentes o cercaram e o dono do Odissey veio empurrando Joãozinho e perguntando: “tu pensou mesmo que tu ia levar essa bunda gorda para sentar na minha poltrona, otário, tu vai é apanhar até te mijar todo”.

No quarto safanão Joãozinho caiu de costas no paralelepípedo e o dono do Odissey sentou sobre seu abdome. No intervalo entre o moleque se acomodar e levantar o punho para começar a socar a cara de Joãozinho, nosso herói encontrou uma enorme pedra solta no chão, que ato contínuo ele atracou no encéfalo do agressor. A única coisa que Joãozinho registrou com clareza foram o baque surdo da pedra, as gotas de sangue que caíram na camiseta do uniforme da escola e a gritaria dos moleques.

Com a agilidade de um felino Joãozinho catou a pasta entupida de livros e cadernos e correu como se não houvesse amanhã, indo esconder-se no banheiro da rodoviária. Foi para casa na hora de sempre, e como deveria ser não comentou nada com seus pais nem com ninguém.

No dia seguinte chegou à escola com um pouco mais de medo do que sempre, mas as coisas haviam mudado. Agora todos o cumprimentavam, aqueles cumprimentos maneiros de bater os dedos e as costas da mão, coisas de gente que era aceita pelo grupo. Todos pediam para fazer trabalho de grupo com ele. Todos o convidavam para jogar vôlei no intervalo.

Joãozinho não entendia nada.

Ao chegar na sala de aula ele entendeu: o dono do Odissey estava lá, com a cabeça enfaixada e um curativo enorme sobre o olho esquerdo.

— Olha aqui, Joãozinho, eu vou te pegar depois da aula!

— E eu vou arrebentar teu olho direito, imbecil, se é isso que tu quer por mim pode ser agora, caso contrário cala essa tua boca.

O dono do Odissey levantou para brigar, e um de seus (até o dia anterior) grandes amigos puxou a calça do abrigo Adidas, com duas listras brancas na lateral, até os calcanhares, expondo o maior segredo da vida dele: um pingolim que parecia menor que o de um recém nascido.

Daquele dia em diante Joãozinho livrou-se totalmente do bullying, e nunca mais precisou brigar com ninguém. Até seus amigos esquisitos pararam de ser perseguidos, e todos viveram felizes para sempre. Exceto, claro, dois da turminha de agressores que numa certa madrugada cheiraram todas e resolveram bater numa travesti que fazia ponto numa esquina; a bicha era faixa preta de jiu-jitsu e cagou os dois a pau, deixando um deles cego de um olho, e o outro com tantas fraturas na perna que nunca mais conseguiu andar direito outra vez. Mas isso é outra história…

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Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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