“Chê, que marca é essa que tu tá tocando?”


Desde piazote que eu queria conhecer o Rio de Janeiro, não porque diziam que tinha praias cosa linda demás, que nisso as barrancas do Uruguai são insuperáveis, além de muito mais emocionantes, garanto. Tampouco era por causa dos morros e florestas, que eu gosto muito mais da pampa verdejante para galopar sem hora para voltar pro rancho. Mas com certeza era porque eu sempre ouvi dizer que no Rio de Janeiro não tem mulher direita, que bastava uma filha de família se bandear para estudar no Rio para se perder na vida e nos prazeres da carne.

Pôs depois de matungo velho juntei uma mala de garupa com uns pesuelos, a guampa de caña e forrei a guaiaca com uns cobres, para bem de fazer a tão sonhada viagem para querência onde as mulheres são todas da vida.

Depois de vários dias no lombo do pingo…

Bueno, em vez de queimar uma capoeira em dia de chuva é melhor eu honrar o bigode e falar a verdade. Só fui de a cavalo até Porto Alegre, de lá peguei dessa condução moderna, parece que é uma maria fumaça de japonês, e fui da rodoviária até o aeroporto, onde peguei um avião para o Rio de Janeiro. Não me deixaram embarcar com a guampa de caña, então tive de escorregar a cachaça toda de uma vez antes de passar naquela máquina que usam para enxergar dentro da guaiaca sem nem abrir o fecho. Confesso que tinha medo do tal de avião, mas foi uma viagem muito tranquila e confortável, pois a gente fica com sono só de sentar naqueles bancos mais macio que úbere de china nova. Não sei por quê, mas eu fiquei com tanto sono que aquelas moças magrinhas e aquele rapazote meio afeminado que cuidam pras pessoas não pitarem na viagem meio que tiveram de me carregar até o lugar onde entregam os pesuelos dos viajantes.

Devo dizer que decepcionei muito com o Rio de Janeiro. Primeiro que os tauras são meio sem respeito com as tradição, e ao me ver pilchado eles gritavam e riam. No começo eu achava que era “Relho! Listrado!”, mas depois me falaram que era “Gay! Viado!”, e só não convidei os qüera prum bochincho porque eu ainda sei contar, e a quantidade de punho deles era maior que a quantidade de dentes na minha boca.

E por falar em bochincho, me incomodei um par de vezes, logo que cheguei, porque fui logo metendo a mão no chinaredo, mas elas tudo tinham marido, e os índio véio não gostaram muito da minha ousadia. Sorte que me fiz de loco e escapei de lombo liso!

Mas o causo que eu ia contar nem era nenhum desses. Foi um episódio mais estranho que filhote de cruz-credo que se assucedeu na tal Rua do Catete.

Eu ia despacito apreciando o chinaredo, quando de repente escutei um barulho que sem dúvida nenhuma era a fala de uma cordeona. Meio com saudade do pago, loco por um fandango, fui ver do que se tratava. Era um grupo mais feio que sobra de guerra: duas moças feias, rebocadas de pintura, com jeito de taura, e um nego véio meio torto com uma casaca encarnada —– era o gaiteiro.

Tentava identificar a marca que o teatino tocava, me parecia um xote meio avaneirado, mas não tinha jeito de eu saber o que era.

—– Chê, que marca é essa que tu tá tocando? —– indaguei. Foi a mesma cosa que perguntar para cuscada. Ou até pior, porque nem latir o nego véio não latiu.

As moças feias, coitadas, podem ter toda a cultura do mundo, dançar o Pezinho e a Chimarrita Balão feito fadas, mas com aquela voz de barbado e aquela feiura, nunca na vida que iam ser primeira prenda de CTG nenhum!

Elas estavam entregando um papelzinho pras pessoas, mas eu nem quis pegar porque na rodoviária de Porto Alegre um surdo mudo me entregou um papelzinho cheio de dedo e mão desenhada, e eu que peguei só para ver de curioso tive de pagar dois mil cruzeiro para ele, para pesada não me levar. Não que eu estivesse vendo ninguém fardado, ou que eu seja covarde, mas quando a gente está na terra dos outros a gente respeita o costume alheio.

—– Chê, que marca é essa que tu tá tocando? —– perguntei novamente, mas já meio com vontade era de dizer que se ele gostava da cordeona dele tinha primeiro de aprender a tocar, já que na baixaria ele nem encostava, praticamente.

Foi quando ouvi um casalzinho chiando mais que sal de fruta em poca água falar algo que me deixou ainda mais confuso.

—– Olha, amô, aij drégui tocando a música da Madonna na sanfona.

—– Como é o nome da marca? —– indaguei à moça, essa sim formosa e crinuda, só não era mais crinuda do que ancuda.

—– É o Rolidei da Madonna, tio!

Bueno, pelo menos ela me disse alguma cosa, mas se ela não estivesse brilhando as canjicas pro meu lado enquanto falava, eu ia achar que era alguma heresia falar do rolidei da Nossa Senhora. E como eu já sabia que as mulheres do Rio de Janeiro não eram aquilo tudo que se dizia no Rio Grande, nem me ocorreu que o rolidei pudesse ser alguma coisa feia ou despudorada. Espero que não seja.

—– Escuta aqui, ô maliducado, tu não vai mesmo me dizê o nome da marca que tu tá tocando, chê? —– perguntei pela terceira vez ao nego véio.

As moças feias se acercaram, e aí quase tive vontade de chorar: elas eram muito mais rebocadas do que eu achava, muito mais feias, pior que parto de porco espinho, e tinham uma pança de égua prenha e nada de anca. As ropa eram meio apertadas, então dei uma analisada mais detalhada, e pelo volume no xórtis delas deduzi que estavam todas naqueles dias, haja vista nem terem conseguido disfarçar o trouxa de pano para segurar o fluxo (vê-se que não sou tão grosso, sei até usar as palavra bonita que vi na propaganda de Sempre Livre).

Elas queriam porque queriam que eu pegasse o tal do papelzinho, mas eu ia morrer de vergonha se tivesse de abrir a guaiaca e mostrar ela mais pelada que piá recém nascido, e nem estava a fim de pagar dois pila ou quanto fosse por um papel rabiscado.

—– É um convite para nossa féijta, aceita aí.

Virei as costa e peguei meu trecho novamente. Afinal, estava mais do que declarado que o tal fandango ia ser mais ruim que carne de cobra, se aquele nego véio fosse o gaiteiro, e as prendas tudo da mesma marca que aquelas duas com jeito de taura. Afinal, cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça, e depois de  tantas que passei estou mais ressabiado com o Rio de Janeiro que cavalo judiado na soga!

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“Chê, que marca é essa que tu tá tocando?”

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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