Certas Coisas não se Dizem a um Homem


Não lembro mais o ano, mas deve ter sido 2002. Eu estava trabalhando duro num projeto de automação comercial, numa empresa que não era muito chegada a oferecer conforto para seus funcionários e prestadores de serviço (eu não era empregado). Por conta disso eu trabalhava em uma sala minúscula, mal ventilada, cuja única vantagem era a de ter uma certa privacidade: ficava longe das áreas de circulação, o que implicava uma certa dificuldade de acesso dos chatos a mim.

Uma manhã cheguei ao trabalho enlouquecido de dor de dente, pois estava no início de um tratamento de canal, e soquei-me em meu cubículo esperando que ninguém no mundo puxasse conversa até a hora de eu ir embora: todos os fatores conspiravam para que meu humor estivesse abaixo de zero naquele dia, entre eles calor, falta de espaço, dente doído e os prazos para entrega do projeto mostrando-se mais exíguos do que eu imaginava que seriam.

De repente meu ramal tocou, eu atendi, e era o contador da empresa, um coroa gente boa mas meio sem noção, solicitando minha presença na tesouraria, que ficava no andar de baixo. Fui lá, já imaginando se ele teria encontrado algum problema no sistema, ou encontrado algum erro de preenchimento na minha nota fiscal do mês anterior.

Lá chegando, encontrei um monte de moleques, os operários da empresa, no fundo da sala, em silêncio, e o coroa me perguntando: “Janio, que horas tu me dá?”, e eu inocente tirei o celular do bolso para conferir qual era a hora atual. “São dez e meia, Seu Fulano”. “É essa a hora que tu me dá, Janio?”, perguntou ele uma ou duas vezes, até que percebi que ele estava com uma das mãos sobre o tiquinho, naquela típica expressão que muitos de nós homens usamos para fazer piadinhas de duplo sentido, ali pela sexta série.

Quando percebi do que se tratava o sangue ferveu imediatamente, e esqueci que em algum momento eu tinha tido respeito por aquele cliente: “olha aqui, Seu Fulano, eu dou aqui e agora na frente dessa molecada, não só dou como chupo e deixo gozar na boca, mas eu quero ver se essa merda aí está dura realmente, ou se além de viado — porque o senhor acaba de me passar uma cantada — o senhor é um velho broxa, babaca e babão”.

O contador perdeu o rebolado, a molecada nem respirava com medo do que viria, e tudo o que ele disse foi: “puxa, Janio, tu não sabe brincar, não?”, ao que respondi: “Seu Fulano, na sua idade o senhor deveria saber que certas coisas não se dizem para um homem, a não ser que se tenham culhões para aguentar o repuxo”.

E saí da sala, aguardando pela rescisão do contrato, que só veio a ocorrer um ano depois, no prazo previsto para a entrega do projeto.

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Certas Coisas não se Dizem a um Homem

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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