“Almoça Conosco?”


Quando eu era criança minha avó contava uma história de um homem que teria na casa dela na hora do almoço, e ante o convite “almoça conosco, Seu Fulano” ele respondeu com um tímido e curioso “eu já almocei, mas se a senhora me der um conosquinho para eu experimentar eu aceito”.

Mas já estou tergiversando, porque não quero contar nenhuma história de família hoje, e sim repetir uma narrativa que chegou aos meus ouvidos na tarde de hoje, remontando o início da década de noventa, numa pequena cidade do interior de São Paulo (a informação exata eu não tenho, mas há quem diga que tenha sido em Barra Bonita).

Era um jovem mascate, que varava o Estado de São Paulo com suas duas malas de roupas, vendendo de loja em loja, buscando o pão de cada dia. Na verdade, era o primeiro dia de trabalho em tal profissão, e ele estava prestes a entrar no primeiro estabelecimento, para fazer a sua primeira venda. Haja nervosismo!

Desligou o motor do automóvel, e numa espécie de macabra ressonância suas tripas fizeram perdurar o ronco: “cablong blong ong”. Respirou fundo, e na mesma medida que uma gota de suor gelado lhe descia a fronte ele reforçava o controle sobre sua musculatura do baixo ventre.

dor de barriga

Entrou na loja, com as nádegas apertadas, sorriso de quem fala “uísque” no rosto, e após breves apresentações estava mostrando os modelitos exclusivos para a potencial compradora. De tempos em tempos suas entranhas faziam crer que houvesse um alienígena dentro de si, prestes a ser parido.

Finalmente a dona da loja completou seu pedido, e pediu a uma das vendedoras que auxiliasse o jovem mascate a dobrar as roupas que ela não quis, mais ou menos um segundo antes de ecoar em seu abdôme o até então mais tenebroso grito do alien.

— Moça, estou meio apertado, será que você poderia me indicar um banheiro?

A jovem morena de ancas fartas e cintura como que esculpida, perfumada, de cabelos que pareciam úmidos como quem recém saiu do banho, enfiada em um vestido de alcinhas, indicou o banheiro da loja, que ficava ao lado dos provadores. Nosso herói, contudo, embaraçado com a possibilidade de o parto do alien não ser dos mais discretos perguntou se haveria um outro banheiro mais reservado.

— É que não é só xixi, entende, moça?

A beldade então conduziu o rapaz até os fundos da loja, no que viria a ser a moradia dos proprietários. Ela caminhando lépida e fagueira na frente, ele com os dentes trincados caminhando feito um pingüim atrás.

Atravessou uma sala de jantar que ostentava uma imensa mesa com doze cadeiras ao redor, e enfiou-se no lavabo que se espremia entre a porta da cozinha e a escada. Trancou a porta dizendo ao esfíncter “segura aí, só mais um segundo”. Mas este se recusou a obedecer.

É difícil transcrever a descrição dos momentos seguintes sem ofender os estômagos mais fracos. Podemos dizer apenas que nosso herói não imaginava que seu organismo franzino pudesse expelir algo para fora de si com tanta pressão. Tampouco fazia idéia de que sentir suas próprias secreções escorrendo pela perna em direção às meias e ao sapato pudesse ser tão perturbador.

Conhecedor da obra do Daniel Godri, amplamente treinado pelos vídeos do Marins, o mascate sabia ser positivo e proativo: apesar de toda a perturbação, seu primeiro pensamento foi “seja como for, meu problema está resolvido”.

Ao terminar de exorcizar as toxinas de seu organismo, nosso herói resolveu fazer um levantamento geral da situação, vindo a constatar que os azulejos estavam ornados com o que parecia ser pintura rupestre, que suas roupas e calçados estavam quase imprestáveis, e tudo o de que dispunha eram uma pia, um sabonete, um rolo de papel higiênico e uma toalhinha de rosto. Fosse ele o MacGyver e teria componentes suficientes para construir uma estação de teletransporte, mas nosso herói era apenas um bem intencionado mascate.

Com paciência e um estômago de aço ele foi administrando os recursos que tinha, chegando ao ponto de deixar o banheiro quase tão limpo quanto encontrara no início, e suas roupas em condições de uso novamente — pelo menos considerando-se o contexto geral.

Sufocado pelos gases tóxicos, com o julgamento e a percepção alterados, finalmente ele estava prestes a ganhar a liberdade e o ar fresco da rua! Então ele abriu a porta do lavabo, e… deu de cara com a família reúnida, doze pessoas almoçando ao redor da mesa gigante.

Às pessoas com cara de paisagem, olhos esbugalhados, estômagos revoltos e corações assustados só restou serem gentis.

— O senhor almoça conosco?

— Não, obrigado, estou sem fome.

E nosso pobre herói até hoje não cobrou as saias e camisolas que deixou consignadas em sua primeira venda na sua carreira de vendedor.

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“Almoça Conosco?”

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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