A praga do gerúndio


— Senhor Janio, o senhor poderia estar respondendo rapidamente duas questões sobre seu acesso à Internet? — perguntou a robotizada operadora de telemarketing.

— Pois não, pode perguntar.

— Senhor Janio, o senhor usa ADSL para estar se conectando à Internet?

— Sim, meu computador está conectado à Internet por um link ADSL.

— Senhor Janio, mais uma pergunta: qual o seu provedor para estar fazendo autenticação?

— Sou cliente da GVT, e uso o serviço de autenticação que a operadora provê, não sou obrigado a ceder à extorsão que os provedores tentam impor.

— Então é isso, senhor Janio, obrigado por estar respondendo minhas perguntas…

— Calma aí, moça, que agora quem quer fazer duas perguntas sou eu.

— Pois não…

— Em primeiro lugar, quem te deu meu telefone, e qual o objetivo dessas perguntas.

— Eu trabalho para o provedor UOL, senhor Janio, e estou fazendo essa pesquisa para estar entabulando dados sobre acesso à Internet — respondeu ela após longos segundos de hesitação.

— E a segunda pergunta é: você usa esse terrível gerúndio o tempo inteiro porque quer ou porque a empresa te obriga?

Mais hesitação.

— Moça, você está aí?

— Sim.

— Então, por que você usa sempre esse absurdo gerúndio? Nunca te falaram que é a coisa mais horrível que alguém pode fazer com a Língua Portuguesa, além de ficar horrível torna a comunicação errada?

— Senhor Janio, isso pode me custar o emprego, pois as ligações são todas gravadas e sofrem auditoria. Mas o uso do gerúndio por parte das operadoras se dá porque a chefia exige isso de nós. Particularmente também acho terrível, mas eu dependo desse emprego, para poder custear minha sobrevivência. Queira desculpar se eu o irritei.

“PQP”, pensei eu.

— Está bem, e me desculpe você, eu não tinha a intenção de ofendê-la.

— Senhor Janio, obrigada por estar participando de nossa pesquisa, e uma boa noite.

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A praga do gerúndio

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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