A “guetização” das relações comerciais

Interessante fenômeno social faz os “empresários” de direita babarem de raiva.

A palavra “gueto” originalmente indica bairros murados criados pelos nazistas, onde obrigavam os judeus a viverem em condições miseráveis. Com o fim da guerra o significado do termo foi-se ampliando e transformando, para dar a entender que era qualquer lugar onde vivessem pessoas segregadas. Porém, ali pelos Anos 1980–1990 a palavra foi “suavizada”, por assim dizer, e passou a significar também os locais aonde iam pessoas segregadas pela sociedade para poder exercer sua arte, sua afetividade, ou o que fosse.

O que na acepção do termo era uma condenação com fedor de morte acabou evoluindo para uma estratégia de sobrevivência: as pessoas que eram marginalizadas pela cor de suas peles, pelos seus cabelos, pelos seus afetos, encontravam espaços protegidos em que podiam ser elas mesmas, confiando umas nas outras (e passando por conflitos comuns a qualquer interação humana, óbvio; não estou aqui para romantizar nada).

Já no Século XXI o Brasil teve uma amostra de que seria possível experimentar um pouco mais de progresso, e houve avanços significativos no sentido de aliviar o estigma social de pessoas com deficiência, pessoas com sexualidades não heteronormativas, das minorias, enfim; aquelas que antigamente eram expulsas do convívio social encontraram força para ser quem eram, para trabalhar em empregos dignos, para auferir formação e conhecimento, abrindo espaço entre as camadas preconceituosas e retrógradas. Com isso os guetos acabaram por enfraquecer, já não eram mais necessários, pelo menos até 2016, ano do golpe, quando os reacionários resolveram eleger as piores pessoas possíveis para cargos públicos, levadas pela manipulação escrachada de suas burrices hediondas.

Antes mesmo da eleição que alçou o onagro apedeuta ao cargo máximo da nação, para máxima danação de quem não é rico privilegiado, eu já vinha praticando uma certa segmentação dos estabelecimentos comerciais (e prestadores de serviço) de quem eu costumava comprar: ao identificar, no dono ou no administrador do lugar, traços de apoio à política onagrista de metralhar, torturar, achar ter o direito de decidir pela vida ou pela morte de outros seres humanos, eu simplesmente parava de negociar.

E é claro que eu não fazia isso só no meu foro íntimo: quando convidado para ir a um lugar da minha lista de banidos, eu sempre dizia: aí eu não entro por tal motivo. E meus amigos acabaram manifestando o mesmo comportamento.

Mas aí passei a perceber que se por um lado meus amigos mais próximos e eu apenas boicotamos estabelecimentos de maneira silenciosa, tem muita gente que também rejeita comerciantes alinhados com a necropolítica de maneira bem mais ostensiva.

As pessoas alinhadas à esquerda no espectro político agora abertamente fazem questão de comprar produtos e serviços de outras pessoas com o mesmo alinhamento.

A esse fenômeno eu chamo de “guetização” das relações de consumo, pois a mesma segregação e necessidade de proteção mútua em um grupo que fizeram prosperar em toda parte estabelecimentos comerciais que só eram acessíveis aos “iniciados,” totalmente inacessíveis à massa mediana da sociedade, agora fazem com que as pessoas escolham onde e com quem vão gastar seu dinheiro, que parte da economia será alimentada pelos recursos que elas produzem.

É claro que não tem nada de errado nisso. Trata-se do livre mercado, onde o consumidor é livre para escolher o produto ou serviço que mais lhe agrada. Ninguém é obrigado a comprar só porque é mais barato — abstraindo que quando se tem pouco dinheiro a circunstância talvez obrigue a nivelar por baixo, mas não é disso que estamos falando.

Apesar de a extrema-direita vomitar muitos clichês idiotas entre os quais “comércio” e “concorrência” livres, os empresários afeitos ao discurso de ódio e de extermínio ficam tomados de ódio com essa mobilização espontânea do pessoal de esquerda para boicotá-los.

Não falamos dos proprietários das grandes redes de supermercado, dos donos dos planos de saúde, dos banqueiros, daquela gente que se parar de trabalhar hoje pode passar o resto da vida sem ganhar mais dinheiro nem mexer no seu padrão de consumo. Esses nunca se importaram com o que acontece aqui embaixo; as leis para eles são diferente do que são para nós.

Estamos falando dos pobres de direita, terceirizados esfolados vivos, autônomos que trabalham feito burros de carga (tipo eu, que trabalho em média 90h por semana) para dar conta de cumprir os compromissos e manter os impostos em dia. São pessoas que deveriam estar do lado de cá da luta, mas que preferem sonhar com o direito de portar armas, de usá-las contra nós, da esquerda, sem medo de punição (porque, para eles, nem humanos somos), pessoas que preferem apoiar a mentira sistematizada, a segregação, a eugenia.

Tenho pena desses empresários que não podem mais vender seu trabalho, de cujos frutos necessitam para sobreviver, para pessoas de esquerda, afetando seu já combalido faturamento.

Combatendo a comunicação fascista: a prática
Maresia

Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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