A estultícia do “Não Aceitamos Cartões”

Recusar “dinheiro de plástico” hoje em dia é um verdadeiro absurdo do meu ponto de vista.

25 de julho de 2016 • Por Janio Sarmento, em Crônicas

Ontem à noite saí com uns amigos, e por sugestão de um deles fomos a um lugar bem simples mas aparentemente honesto porque queriam comer esfihas, ou sei lá qual seria exatamente o cardápio do lugar. Chegando lá vi um estabelecimento comum, com balcão, atendentes, mesas, cadeiras, e por aí vai. Mas o que me chamou atenção de verdade foi uma enorme placa na parede dizendo: “não aceitamos nenhum cartão de crédito ou débito”. Por outro lado, eles aceitam cheques.

Eu, particularmente, não uso cheques tampouco costumo andar com dinheiro na carteira. Já faz muito tempo que rendi-me à facilidade do “plástico” (que já está se tornando obsoleto, papo para outro dia), e 100% do dinheiro que ganho vem online, seja porque eu trabalho usando a Internet como ferramenta, seja porque meus clientes pagam as faturas emitidas online e o dinheiro vai direto para a conta da minha empresa, sem que eu precise receber um único centavo na minha mão.

Então, imagine o desapontamento ao constatar que por ter apenas uns trocados na carteira eu teria de pedir a um dos meus amigos que pagasse minha conta.

Tão logo apontei para o absurdo começamos a discutir o assunto. Aparentemente eu era o único me sentindo “ofendido” pelo cartaz do comerciante, razão pela qual desisti de expor meus argumentos, mas faço-o agora.

O Consumo é uma Experiência Completa

Por mais que seja óbvio parece que alguns comerciantes esquecem deste conceito tão importante: a experiência do consumo começa bem antes e termina muito depois do momento em que o cliente devora o seu prato — para ater-me ao exemplo que inspira este texto.

A partir do momento que o pretenso consumidor entra no estabelecimento ele começa a ter uma experiência de consumo que pode ou não culminar numa venda. Essa experiência perpassa o momento do pagamento, e seria tolo pensar que ela termina quando o  cliente sai da porta da loja.

Assim, posso dizer que o cartaz do estabelecimento em tela cortou o meu barato de consumir quando ele estava recém começando. Mas caso eu não tivesse visto o aviso, e passasse pelo constrangimento de não poder pagar pelo que tivesse consumido por limitação do vendedor, e não por má fé minha, é provável que a comida até me fizesse adoecer.

Portar Dinheiro é Inconveniente

Acho que nem preciso entrar em detalhes aqui. Principalmente se considerarmos que os shopping centers da cidade têm sido alvo de arrastões e “rolezinhos” criminosos (que nada têm a ver com o movimento social que leva jovens de periferia a passear e a divertir-se em ambientes que os rejeitam sistematicamente), que o mercado municipal tem mais frequentadores punguistas e assaltantes do que compradores, e que a criminalidade está cada vez mais escancarada.

Nem pessoas nem estabelecimentos têm tranquilidade para andar com os bolsos cheios, pois a qualquer momento podem ser vítimas de uma violência.

Todo Empresário Deve Saber Calcular Custos

A justificativa de quem defende o boicote ao “dinheiro de plástico” se baseia nos custos que os estabelecimentos têm entre aluguel de “maquininhas” (nome simpático para “terminais POS” — Point of Sale, ponto de venda) e taxas por transação.

Acontece que faz parte das obrigações de qualquer empresário saber calcular seus custos fixos e variáveis, e com base em toda a análise do financeiro da empresa encontrar meios de fazer com que os custos de cobrança sejam considerados no momento de calcular o preço de venda.

Afinal de contas, se um estabelecimento já fatura e gera lucro com uma mentalidade mesquinha e atrasada de não aceitar cartões (mas aceitando cheques, cujos riscos são integralmente do comerciante, vai entender), imagine o quanto mais poderia ganhar se não afugentasse uma grande parcela da população desejosa de seus produtos e serviços, mas que se recusa, sejam quais forem os motivos, a carregar dinheiro em espécie por onde quer que vá.

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