#365Posts – O triste fim dos blogs como eu os conheci

Em poucos anos os blogs sofreram transformações intensas e complexas e, salvo poucas e honrosas exceções, deixaram de ser o que eram.


blogCom o fim do Google Reader migrei minhas assinaturas de feeds para para The Old Reader, o que me deu chance de fazer uma revisão nos meus feeds.

Acabei descobrindo que:

  • Nove blogs que eu assinava foram vendidos, hackeados ou abandonados a ponto de o domínio sair do controle dos antigos donos, porque só o que havia nos feeds era spam, e nada dos posts originais.
  • Mais da metade dos blogs que eu assinava simplesmente foram abandonados, mas os donos ainda pagam a anuidade do domínio por algum motivo.
  • Blogs brasileiros são os que em maior número deixaram de existir.
  • Blogs de língua inglesa continuam firmes e fortes, em sua maioria.
  • Os blogs que sobreviveram mudaram muito com relação ao que eram dois anos atrás.

Creio que as causas para este tipo de acontecimento sejam, basicamente, de três origens (sem nenhuma ordem específica): as financeiras, as originadas pelas fontes de tráfego, e os comentaristas.

Como eram os blogs que eu conheci

Os blogs que eu conheci, dos quais ainda restam representantes de peso, eram todos absolutamente pessoais. Seus autores escreviam sua opinião a respeito dos mais diversos assuntos, escreviam ficção, informavam, mas acima de tudo divertiam-se muito com o que faziam.

Não eram raras brincadeiras bobas das quais eu eventualmente participei, como os “selos” que blogueiros criavam e distribuíam entre si; ou as tags (que por aqui chamaram erroneamente de memes a vida inteira), que era quando um blogueiro intimava outros a opinarem sobre um mesmo assunto.

Este tipo de blog começou a ficar mais raro quando as pessoas viram que dava para faturar com propagandas, e começaram a escrever blogs sem conteúdo — ou pior: blogs com conteúdo ruim — só para atrair visitas orgânicas, de modos que o visitante chegando à página depois de consultar no pai dos burros só encontraria os anúncios para clicar, como forma de sair para algum lugar minimamente promissor.

Causas financeiras para o encerramento de blogs

Muita gente fez de seus blogs, por muito tempo, meio de ganhar a vida. Muita gente comprou imóveis com Adsense e programas de afiliados, e viveu como nenhum emprego formal permitiria viver.

Entretanto, já há uns bons anos, essa realidade vem mudando, e a maioria dos probloggers acabou ficando mesmo sem dinheiro, e com isso rarearam a inspiração e a vontade de escrever. Além disso, manter um blog é tarefa dispendiosa, e muita gente que tinha vários blogs resolveu consolidá-los num só, com o fito de diminuir despesas.

Não que me façam a menor falta, mas para constar mesmo, um grande número de blogs que antes eram rentáveis mas só continham lixo deixaram de sê-lo, e seus donos apenas os abandonaram, não mais pagando nem mesmo a renovação dos domínios.

Causas do encerramento de blogs relacionadas às fontes de tráfego

Com as constantes mudanças nos algoritmos de rankeamento do Google, muita gente que achava que manjava dos paranauê de SEO acabou ficando sem visitantes. Mesmo os que não escreviam por dinheiro acabaram se ressentindo, porque existe algo ainda mais importante do que dinheiro para os blogueiros: a vaidade.

Também, o Facebook trouxe uma revolução na maneira como as pessoas usam Internet. As pessoas que antes achavam que o Google era a Internet, agora acham que o Feice é. E muita gente se rendeu a essa tendência, deixando de postar nos seus blogs para escrever diretamente na rede social, aproximando-se do seu público.

Por fim, todo esse movimento que já expliquei até agora fez com que, de acordo como percebo as coisas, blogueiros lessem cada vez menos outros blogueiros, e com isso a distribuição de links espontâneos — que fazia com que novas pessoas conhecessem novos blogs, e muitas se tornassem blogueiras por influência desses blogueiros de quem elas gostavam — acabou.

Causas do encerramento de blogs relacionadas aos comentaristas

Deixei esta seção por último porque preciso tomar cuidado, muito cuidado, com o preconceito.

Quando eu comecei a blogar dizia-se que “blogs são conversações”. A troca espontânea e constante de links entre os blogs (é da natureza de um blogueiro escrever um post para rebater ou reforçar a opinião de outro blogueiro) teve um papel importante, mas o principal mesmo eram os comentários. Eram eles quem davam volume a uma conversa, que davam elementos ao autor do post para saber se abordara o assunto da maneira correta, equivocada, que demandasse correções no post ou clarificações em um comentário mesmo.

Mas aí começou um fenômeno de ingresso massivo de pessoas incapazes de ler e interpretar um texto deixando comentários não apenas discordando do autor do blog, mas demonizando-o, tratando-o como um criminoso, ofendendo e agredindo.

Cortesia: Jesus Manero

Imagem: cortesia de Jesus Manero

Existem alguns comportamentos abjetos que são totalmente previsíveis, como por exemplo:

  • Se o post for sobre Apple, haverá sempre os odiadores da marca que ficarão falando merda, tentando desqualificar quem compra os produtos de Cupertino. Também haverá os que provavelmente nem têm produtos Apple, mas ainda assim se acham no direito de criticar a Siri que não está disponível em Português, o design dos novos ícones do iOS, ou o que for.
  • Se for sobre algo falando sobre os homossexuais, seja defendendo a causa pela igualdade de direitos, seja falando merda e tentando diminuir as pessoas que são, apenas, diferentes, não vai faltar gente achando ofensivo o que o blogueiro escreveu, não vai faltar crente para dizer que ele vai para o inferno porque a bíblia é a expressão da verdade (mas sempre tiram o deles da reta quando se trata de negociar as filhas deles como escravas), nem homossexual para acusar o blogueiro de fascismo.
  • Se o blog (ou o post) acabar se tornando mais conhecido, não vai faltar gente para perguntar nos comentários exatamente aquilo que o post explicou vários parágrafos acima — e provavelmente nunca vai voltar para ler a resposta. Aliás, antigamente eles diziam “aguardo resposta no email”, mas como hoje em dia só sabem usar o Feice não dizem nem isso mais, só ficam esperando que a resposta caia magicamente na sua timeline.
  • Em qualquer portal de notícia sempre vai ter gente que vai em tudo que é publicado, não importa o assunto ou o teor da notícia, para dizer que o Brasil está na merda por causa do PT, ou do PSDB, ou do PMDB, como se os políticos que vão para o poder não fossem eleitos pelo voto popular.

Com isso, muitos blogs bons mudaram radicalmente de formato: em vez de posts longos e elaborados passaram a postar notas curtas (como se seus blogs fossem o Twitter), e não raro desabilitaram totalmente os comentários, para não ter que lidar com atitudes como as acima mencionadas.

O futuro dos blogs

Infelizmente, não sou capaz de prever o que vai acontecer com os blogs como ferramentas. O máximo que posso é falar sobre o futuro dos blogs e sites de conteúdo do ponto de vista do software. Mas o pressentimento não é dos melhores…

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Glossário
SEO
Search Engine Optimization (Otimização para Mecanismos de Busca)
Visitas Orgânicas
Visitas oriundas dos mecanismos de indexação e busca da Internet, logo tráfego pelo qual não se paga nada.

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#365Posts – O triste fim dos blogs como eu os conheci

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

6 comentários

  • augustocc:

    os meus continuam vivos nos teus feeds, espero 🙂

    Responder
    • Janio Sarmento:

      Sim, todos eles. 🙂

      Responder
  • orogeriolima:

    Pois é. É triste ver a blogosfera definhar (salvo blogs de moda). Eu ainda tento com o meu blog manter “as raízes”, mas ninguém quer ler. Como em um post que escrevi no último BlogDay, os blogs são o reflexo do que o povo quer ver. Do mesmo jeito que a TV é. E assim caminhamos para a o limbo da internet.

    Responder
    • Emily Figueiredo:

      Concordo com Rogério, blogs de moda ainda se destacam.

      A gente escrevia e se encontrava pra fazer amigos (no meu caso) e isso não tinha preço!!

      Responder
      • Janio Sarmento:

        Mas eu acho que os blogs de moda continuam amealhando visitação e se mantendo por um único motivo: eles entregam o que a “massa” de supostos leitores quer consumir.

        A outra contramão em que estou é a da produção de conteúdo em vídeo (nem a fase do Podcast eu tive, imagine se vou fazer vídeos), que são perfeitos para os analfabetos funcionais — basta não usar legendas nos vídeos.

        Responder
        • Emily Figueiredo:

          É…se a massa quer consumir uma cara de argamassa em pleno calor brasileiro, nós temos um sério problema com nossas garotas!!rsrs Eu acho tudo muito estranho…

          Tmb tô na mesma quanto a podcast e vídeo… nem consumir nem produzZzzzir…

          Mas olha só que coisa boa, conheci um blog novo ontem, e favoritei pra vir ler mais coisas! 😉

          Responder

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