#365Posts – “Te Amarei para Sempre” (ou como distorcer uma história parecendo fiel a ela)

Um filme baseado em um livro podem ser tão diferentes a ponto de aquele desfigurar a história deste? Saiba o que eu acho deste exemplo específico lendo este post.


Neste fim de semana assisti no TNT ao filme “Te Amarei para Sempre” (“The Time Traveller’s Wife”, ou “A Esposa do Viajante do Tempo” em Portugal). O filme é de 2009, e é uma adaptação do romance de mesmo título, de 2003, por Audrey Niffenegger.

Como já se trata de um filme “velho”, não vou entrar no velho expediente de avisar que se você ainda não viu o filme e fica chateado quando alguém revela o enredo pare de ler agora blá blá blá.

Da maneira como o filme foi adaptado do livro (levando-o a ser categorizado como ficção científica, fantasia e romance), o aspecto mais importante de toda a trama é, sem dúvida, o relacionamento entre Henry e Clare. Eles se encontram na biblioteca em que Henry trabalha, e se apaixonam. Só que ele ainda não começou a fazer as viagens no tempo que o levam a encontrar com a Clare menina. Por esta razão ela já está apaixonada por ele há anos, e o conhece muito bem, mas ele ainda não sabe quem é aquela beldade por quem se apaixona.

te amarei para sempre

Henry tem a condição de viajar no tempo devido a uma anomalia genética que o faz sumir de sua vida normal e aparecer pelado em tempos e locais do futuro e do passado, aleatoriamente, até que acaba sendo morto com um tiro de rifle pelo seu sogro republicano, numa viagem dessas, quando é confundido com um veado que ele caçava.

Acontece que o livro no qual o filme foi baseado não trata somente do amor eterno sem fronteiras do casal mais complicado do mundo da ficção (tão complicado que ela engravidou depois de o cara ter feito uma vasectomia, porque seduziu o outro eu dele, do passado, que acabou viajando no tempo para o futuro). E o fruto dessa relação extraconjugal com o próprio marido é uma menininha adorável, que também viaja no tempo mas que não passa exatamente pelos mesmos problemas que o pai.

O livro trata de portadores de deficiência física. A condição genética de Henry é uma deficiência física, e no livro a situação dele de deficiente é levada ainda mais adiante: ele perde as duas pernas e passa o resto da vida numa cadeira de rodas, enquanto que no filme ele aparece com um pé afetado pela hipotermia, e quando está no hospital o Dr. Kendrick, o geneticista responsável por decifrar a doença de Henry, é enfático ao dizer que vai ficar tudo bem, “Henry não vai ser um aleijado”.

Aliás, por falar em Dr. Kendrick, uma outra diferença notável na adaptação do livro para o filme está na cena em que Henry procura o geneticista para tentar encontrar uma explicação, ou a cura, para seu problema. O cientista é enfático ao dizer que viagem no tempo é impossível, e Henry revela algo sobre o futuro para tentar ganhar credibilidade: no filme ele diz que o Dr. Kendrick vai ganhar o Prêmio Berger, mas no livro ele diz que Colin, o filho dele que vai nascer, terá Síndrome de Down, e que será um garoto maravilhoso. No texto original a reação do Dr. Kendrick é bem menos simpática e positiva do que no filme.

Já sobre Alba, que tem a mesma condição genética do pai (a viagem no tempo — vale lembrar que ele só foi parar na cadeira de rodas por causa da hipotermia), tanto no filme quanto no livro ela demonstra estar bem mais adaptada à situação em que vive. Para mim fica claro que isso é resultado especificamente de ela ser filha de pais esclarecidos quanto à sua diferença, que a apoiam e estimulam para desenvolver seu potencial, independente da condição genética.

Se por um lado o livro e o filme tratam (mesmo que de maneiras e em intensidades distintas) da deficiência física, por outro também tratam usam a história de amor eterno, sem fim e que nunca acaba para tratar de uma outra questão que, assim como os deficientes físicos e outras minorias, as pessoas ditas “normais” preferem fingir que não existe: a da inevitabilidade da morte e da separação entre pessoas que se amam. Se o Henry do futuro decide só fazer por si jogar na loteria com o conhecimento prévio dos números que serão sorteados, a Alba do futuro é bem mais diligente consigo mesma, e aproveita as estadas com a Alba de cinco anos de idade para prepará-la para a morte do pai, que vai acontecer ainda naquele ano.

Por fim, gostaria de perguntar ao leitor que disse que eu só sirvo para ver filmes dos Transformers (além de a todos os outros) se ele concorda com minha análise, e por quê, e que apontasse onde estou sendo um escroto insensível ao comparar o filme e o livro, que cometem o tenebroso pecado de não serem russos, iranianos, ou de algum outro país com uma indústria cinematográfica que não Hollywood, a própria.

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Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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