#365Posts – Restaurando a fé na humanidade

Acredito que a medida da fé na humanidade é a mesma da fé que tenho em mim mesmo. Se eu não for capaz de reconhecer e erradicar meus próprios preconceitos, que moral eu tenho de esperar ou exigir isso do restante do planeta?


Normalmente eu gosto muito dos posts do tipo listas, principalmente quando eles enaltecem alguma coisa de boa do gênero humano.

Hoje alguém no Feice postou um link para um post nem tão recente assim, chamado 21 fotos que irão restaurar sua fé na humanidade.

Acho todas as situações muito bacanas, principalmente as das pessoas que se arriscam e esforçam para salvar animais domésticos, uma vez que estes não têm nada além do fato de existirem para oferecer em troca.

Entretanto, me parece que este tipo de lista (para “restaurar a fé”) só faz sucesso porque as pessoas boas, como você e eu — embora eu só possa falar por mim — estão soterradas pelas manifestações dos cânceres da humanidade: preconceituosos de todo tipo, gente que se acha no direito de tolher direitos civis alheios porque prefere aceitar o que um patife qualquer diz a pensar por si próprio, gente que em nome da paixão pelo futebol hostiliza o semelhante, e por aí vai.

De fato, a fé na humanidade pode ser restaurada. E vejo isso pelo único indicador realmente válido que conheço: minha vida, minhas vivências, meus valores, conceitos e preconceitos, e as transformações pelas quais eles passam.

Embora eu seja um cara legal, divertido, responsável, e tenha um milhão de virtudes, eu sou muito preconceituoso. E neste exato momento estou trabalhando intensamente três preconceitos terríveis que eu trago desde sempre comigo. Não será tarefa fácil vencer um deles, imagine os três. Mas não é a total extirpação dos preconceitos da minha personalidade que conta, e sim o processo constante de observação e transformação.

Para quem está curioso, seguem os meus três piores preconceitos, listados em ordem crescente de intensidade (não que eu já não os tenha denunciado três parágrafos acima).

Preconceito linguístico

O preconceito linguístico ocorre quando uma pessoa ou um grupo sofre discriminação, constrangimento, agressão, por seu modo de se expressar.

Quando eu era mais jovem só me incomodava muito com a maneira de as pessoas falarem. Talvez porque eu me comunicasse por escrito com um grupo mais diferenciado, praticante da boa ortografia.

Entretanto, de alguns anos para cá tenho sido bombardeado com manifestações escritas de transformações que são inerentes à língua (como diz meu amigo Franco, a língua é um organismo vivo, por isso tanta gente tenta assassiná-la).

Quando eu vejo um texto mal escrito, verbos sem o R do infinitivo, uso indiscriminado de crase, X no lugar de CH e vice-versa, ausência de pontuação, o preconceito me leva  a, imediatamente, desqualificar totalmente o interlocutor, como se o fato de ele escrever de uma forma diferente da que eu espero o tornasse menos humano, menos digno, menos importante do que eu ou qualquer dos meus eleitos somos.

Confesso que já dispensei prospectos porque eu me sentia agredido pela maneira como os infelizes escreviam.

Agora, no meio desse processo, tento me conscientizar que vale para mim a mesma regra que eu sempre uso para desqualificar a homofobia; para eles eu digo “se você não gosta de casamento gay então não se case com um gay”, e para mim a frase é “se eu não gosto de textos mal escritos então eu que trate de escrever direito”.

Até porque, em última análise, tudo isso é uma grande bobagem mesmo.

Preconceito contra religiosos

O meu segundo pior preconceito é contra religiosos em geral. OK, não todos: só contra os que se dizem “cristãos” e que acreditam nessa papagaiada de céu e inferno; as religiões que acreditam em karma, reencarnação e forças da natureza costumam ser menos intolerantes com os “de fora”, e com isso não alimentam tanto minha antipatia.

Como todo preconceito, eu simplesmente me privo da possibilidade de conhecer pessoas legais, inteligente, cultas, simplesmente porque quando eu detecto traços de “cristianismo de crente” eu isolo a pessoa tanto quanto consigo. Digo, este é o comportamento que o preconceito induz.

Como estou no processo constante e eterno cujo objetivo é purificar-me desta mácula em meu caráter, sempre que o “piloto automático” desqualifica uma pessoa pelas suas crenças eu boto o racional para operar, dizendo a mim mesmo que a outra pessoa é tão santa quanto eu (o mesmo vale para os assassinos da Gramática e para os torcedores fanáticos, e para qualquer outro ser humano, claro).

Mas ainda me vejo com atitudes de medo dessas pessoas (preconceito é medo, ódio é medo, tudo que não é Amor é medo). Semana passada eu atrasei meu almoço com amigos em uns 40min, porque me recusei a entrar em um vagão do metrô lotado de evangélicos; preferi esperar a próxima composição, quando então eu poderia escolher um vagão com menos evangélicos uniformizados com camisetas de suas igrejas baseadas no medo, no preconceito e no desrespeito às minorias.

Infelizmente, eles não se ajudam, pois estão sempre arranjando silogismos para “embasar” seu preconceito e suas atitudes discriminatórias que visam construir uma sociedade machista e pasteurizada.

Mas, de qualquer forma, se eu não gosto de igrejas o melhor que posso fazer é não frequentar uma.

Preconceito contra torcedores de futebol

Eis o mais terrível de todos os meus preconceitos atuais dos quais tenho consciência (nunca se sabe o que vem lá). É algo tão forte que, admito, chego a sentir uma pontinha de alegria quando ouço notícias de uma torcida organizada qualquer matando integrantes de outra.

Quando eu vejo alguém vestido com uma camiseta de time, principalmente se for do Grêmio ou do Corinthians, a impressão que tenho é de estar diante de um assassino louco sem limites, capaz de qualquer atrocidade contra quem não “louve o mesmo manto” que ele. No meu caso, que cago e ando até para o time de meu pai, que herdei para agradar a ele (o Internacional), isso significa que eu me sinto uma vítima potencial por assassinato por qualquer um desses loucos, uma vez que eu não uso nenhuma camiseta de time de futebol.

É muito difícil de lidar com esse sentimento, até porque tenho amigos queridos, irmãos de coração, que são torcedores fanáticos. A mulher mais incrível que conheci no Rio de Janeiro, que conquistou meu coração desde a primeira vez que conversamos (sim, Drica, estou falando de você), é flamenguista fanática, e uma das poucas pessoas de quem tolero comentários a respeito do ludopédio e as rivalidades entre torcidas.

Já foi pior, mas ainda é muito difícil aturar comentaristas esportivos na tevê (principalmente os comentaristas locais do Rio de Janeiro — não sei por quê), e assistir a uma partida de futebol pela tevê só mesmo como mostra de amizade profunda pelas pessoas com quem eu esteja “compartilhando” o momento.

E se os crentes não ajudam muito o meu processo de erradicação do preconceito contra eles, os fanáticos por futebol menos ainda.

O exemplo de Dustin Hoffmann

Minhas amigas (mais de uma) postaram o vídeo abaixo, em que Dustin Hoffmann fala sobre o filme Tootsie, que para o mundo todo é uma comédia, considerada uma das melhores do mundo, mas para ele não foi.

Na entrevista ele fala, emocionado, da importância que o papel teve na vida dele, pois quando ele se viu como uma mulher que não era atraente (para os padrões que ele tinha na época), ele compreendeu que provavelmente deixou de conhecer mulheres incríveis, inteligentes, e com muitas outras virtudes, apenas porque devido ao fato de elas não serem o que ele considerava “bonitas” ele jamais sequer conversaria com elas.

Finalizo este post com o vídeo para que pelo menos alguém prove que é possível, sim, tomar ciência da lavagem cerebral e revertê-la. Se eu ainda me incomodo com torcedores crentes que não escrevem direito, espero que no futuro — nem que seja noutra vida — eu possa me orgulhar de ter vencido estes preconceitos, assim como já venci vários outros, que não preciso listar, mas qualquer um que consiga perceber quais são as causas que eu apóio saberá do que estou falando.

Em tempo: caso o vídeo não esteja aparecendo, por problemas de incorporação na página, ele pode ser encontrado aqui.

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Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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