#365Posts – Querida Claro, respeite minha inteligência

Carta aberta à operadora Claro, clamando por um pingo de respeito com os consumidores, ou pelo menos comigo.

06 de outubro de 2013 • Por Janio Sarmento, em #365Posts

Querida Claro,

Já se vão alguns anos de relacionamento, você lembra? Deveria lembrar, pois você tem sistemas avançadíssimos de controle de clientes, CRMs, SAPs, DBAs, e muitas siglas mais para significar ferramentas para quantificar ou qualificar o valor (pecuniário, sabemos) que um consumidor como eu possa ter. Desde quando você entrou no mercado sob o nome de Telet, lembra? Eu gostava mais quando você usava as cores verde e amarelo, e tinha um tucano (ou era um papagaio?) como mascote, em vez do Ronaldo, e esse vermelho que me faz lembrar de perigo, perigo, perigo (com a voz do robô de Perdidos no Espaço).

Estou te escrevendo, querida amiga, não para relembrar dos velhos tempos, e sim para falar do presente imediato. A referência ao longo tempo de relacionamento serve “apenas” (como se fosse pouca coisa) para deixar marcado que eu uso os seus serviços porque as concorrentes conseguem ser tão ruins quanto você, em alguns casos até piores, e já tendo passado por todas as modalidades de planos e pacotes pré e pós pagos, eu já conheço seus pontos fracos e fortes, algo que você deveria considerar.

Veja, querida Claro, que eu tenho o direito de ficar extremamente irritado quando meu telefone toca e interrompe alguma coisa que estou fazendo (como trabalhar, ler,escrever, ouvir música, ou tocar minhas partes pudendas — não importa), eu atendo e não ouço nada a não ser silêncio e o tom de ligação “caída”. Não só pela interrupção invasiva, mas porque eu sei que esses telefonemas não vão parar até que finalmente um de seus empregados ou terceirizados de televendas se digne a falar comigo para tentar me empurrar um plano de celular que eu não quero.

Isso sempre acontece, todo mês.

Hoje, pela segunda vez, aconteceu de eu ser maltratado por um destes seus empregados, amiga Claro. Veja, eu não estou dizendo que você anda me desrespeitando, mas eu deveria, afinal uma empresa é responsável pela maneira como agem seus empregados ou prepostos, e quando eu resolvi ter uma relação comercial com você, Claro amada, eu não tive o direito de escolher sequer que não queria receber este tipo de telefonema, imagine se eu poderia escolher tratar só com os empregados bem educados, bem humorados e de bem com a vida!

Mas, amiga, tergiverso: não estou escrevendo uma carta aberta para reclamar de seus empregados malcriados, e sim para te pedir, em nome dos anos de relacionamento, um pouco de respeito — pode ser bem pouquinho que já me deixa feliz.

Hoje à tarde, então, repetiu-se o episódio de eu atender uma de suas ligações, e ter o desprazer de falar com um de seus “profissionais” de televendas. O discurso padrão deles começa tentando me empurrar um monte de supostas vantagens que só me irritam, pois eu uso o celular como terminal de Internet móvel, e não como telefone. Aliás, amiga, depois de tantos anos juntos você já deveria saber que eu detesto falar ao telefone, né?

Aí, a primeira pergunta que os malcriados fazem é: “Sr. Janio, quanto o senhor gasta mensalmente em recargas?”

Amiga, que hipocrisia! Nós sabemos que quando o atendente está falando comigo ele tem acesso ao meu histórico, e ele sabe exatamente o quanto eu gasto de celular pré pago todo mês, quando fiz cada recarga, por que meio e o valor exato de cada uma. Que golpe baixo é esse de me obrigar a dar uma resposta inexata para me fazer sentir um imbecil que não sei nem cuidar do meu próprio dinheiro?

Aí eu sempre digo para o malcriado que ele não precisa me perguntar uma coisa cuja resposta ele já tem. E ato contínuo teu preposto, amiga, a cara e a voz que você dá a si mesma, me faz uma oferta descabida e claramente mentirosa. Sempre.

Quando eu digo que não uso o celular para falar, apenas para usar Internet, a pessoa me oferece um plano de Internet ilimitada — segundo ela — que me permite ter 3G no celular, com velocidade de 5Mbps, sem franquia de download, sem queda de velocidade e sem cobrança extra, por R$ 31,90 mensais.

Eu assinaria de olhos fechados se você, querida Claro, tivesse um plano desses para oferecer. Mas nós sabemos que a sua estratégia comercial consiste em cobrar cada vez mais, limitar cada vez mais o uso de Internet, para poder enfiar mais consumidores na rede sem precisar investir em melhorias na infraestrutura.

Aliás, amiga, permita-me um arroubo de sinceridade que talvez te deixe magoada, mas que não deveria ser nenhuma novidade: se uma de tuas concorrentes me oferecesse um plano de dados com estas características, a este preço, e me exigisse fidelidade e exclusividade, você dançava. Na hora. E rodrigueanamente falando, a culpa seria toda tua por eu te trair e te trocar por outra.

Então, Claro amada, ante a insistência dos malcriados, eu peço que quero ler o contrato antes de fechar negócio. Que eu quero saber quais são os compromissos que você e eu estamos assumindo (chego a me emocionar só de pensar em nós dois reafirmando compromissos) antes de autorizar qualquer cobrança, e então eu sou xingado, sou chamado de burro, e fico feliz quando apenas desligam o telefone na minha cara.

Amiga, um pingo de respeito por mim, amada! Por favor! Eu nunca te dei motivos para desconfiar de nada quanto ao estrito cumprimento de minha parte em nossos acordos. Por que você tem a pachorra de querer me agredir só porque eu peço para ter certeza de que o teu preposto malcriado não está me mentindo? E, desculpa, amadinha, se você não sabia que eles andam fazendo isso; eu sei que é horrível descobrir a verdade assim, pela boca dos outros, mas depois de — sei lá, vinte anos? — eu tenho que ter a liberdade de te dizer quando estão sujando teu nome, né?

Então, Claro querida do meu coração, te peço apenas três coisas:

  1. que você não desrespeite minha inteligência ao permitir que seus prepostos sem escrúpulos façam ofertas mentirosas e a descoberto, de planos que não existem;
  2. que você não me telefone se não for para falar comigo — melhor ainda seria se nunca mais me telefonasse, já que agora você já sabe que eu detesto falar ao telefone;
  3. que me perdoe por tornar pública uma correspondência que deveria ser particular, deveria ser só nossa; mas uma relação bonita como a nossa merece ser de conhecimento do mundo, para que mais pessoas sigam o nosso exemplo, não acha?

Para terminar, amiga, despeço-me desejando para você que cada um dos seus diretores, tomadores de decisão, cada um responsável pelo atendimento e relacionamento com o cliente, seja tão bem tratado por cada fornecedor de serviço com o mesmo carinho e respeito com que você vem me tratando há tanto tempo. Afinal, você sabe o que é bom para mim, e o que é bom para mim tem que ser bom para eles também. Vou rezar antes de dormir para que isso aconteça todos os dias, tá?

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