#365Posts – “Quem não diz ou faz exatamente o que quero está contra mim”

As pessoas quando tomadas por suas paixões frequentemente consideram qualquer expressão que elas não compreendam como um ataque à sua crença e seus valores, tornando o semelhante automaticamente em inimigo.


Já faz muito tempo que deixei de querer compreender a natureza humana, mas a despeito disso eu ainda me surpreendo com determinadas coisas que acontecem.

Ainda no contexto do momento político e histórico que o Brasil vive, em que autoridades mandam descer o cacete nos que ousam manifestar descontentamento, em que a polícia usa munição que deveria ser de efeito moral à queima roupa no rosto das pessoas — eu ainda me emociono com certas coisas que vejo.

Por exemplo, ficar sabendo e “testemunhar” pelas redes sociais que transportam o relato de pessoas como eu e você, de que gente ao redor do mundo está se mobilizando e se manifestando em apoio aos manifestantes brasileiros (assim como os da Turquia, mas não quero me estender demais na reflexão).

https://twitter.com/r_almeida/status/346238066207367168/

Se de um lado temos a mídia vendida que elabora notícias com vistas apenas nos interesses dos seus anunciantes (os governos são os maiores patrocinadores das mídias convencionais), por outro as pessoas (finalmente parecem que) se dão conta de que a Internet lhes dá o poder de levar a informação sem os filtros mercantilistas que afetam as empresas que ganham dinheiro com as notícias — e que fique claro, eu não tenho nenhum problema com quem ganha seu dinheiro honestamente.

Entretanto, as pessoas são movidas por paixões, e agem como se precisassem combater um inimigo, o tempo todo.

Lembro que o que me fez ter nojo de sindicalistas em geral foi o discurso do PSTU, do PCO e de outros partidos de esquerda, tão fascistas quanto os de direita: eles demonizam o patrão, o empresário, como se este fosse a causa de todos os sofrimentos da população. Ora, é claro que eu não concordo com esse discurso, porque eu sou empresário, eu sou patrão, e já fui empregado também. Eu sei que as dores e as delícias não são as mesmas, mas com certeza não é gente como eu que faz este país ser uma merda.

Estou dizendo tudo isso porque tenho visto muitas manifestações, principalmente no Facebook, de gente que ao apoiar os protestos em São Paulo ou em qualquer lugar do Brasil ou do mundo, esquece que não é porque outra pessoa tem uma visão um pouco diferente que esta pessoa é inimiga. Vários amigos meus têm sido xingados de vários nomes feios porque ousam enxergar as coisas de um ponto de vista diferente.

E a mim, por causa do post em que digo que não tenho esperança de que o sangue que estes jovens estejam derramando resulte realmente em um Brasil melhor, têm tocado manifestações de desprezo, como se eu não quisesse que o país melhorasse, e estivesse sabotando a iniciativa da moçada que vai às ruas dar a cara a tapa.

Não vou entrar no mérito de o que eu já fiz quando era eu mesmo estudante e não tinha compromissos que se não cumpridos implicassem alguém ficar sem seu salário, sem ter recursos para sustentar suas famílias. Se esta geração aos vinte e poucos vai para as paraças e ruas exigir mudanças, a minha foi aos 13 ou 14 anos, numa época em que todo mundo ainda sentia o bafo do regime militar na nuca.

Enfim, se diminuir a opinião de quem acha que procurar a dor e o sofrimento numa causa perdida faz de vocês melhores, fiquem ao seu próprio gosto. Eu vou continuar fazendo a minha parte para que esta ilusão que a maioria chama de realidade se torne minimamente melhor para quem vier depois de mim, entendam vocês ou não.

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#365Posts – “Quem não diz ou faz exatamente o que quero está contra mim”

Janio Sarmento
Administrador de sistemas, humanista, progressista, apreciador de computadores e bugigangas eletrônicas, acredita que os blogs nunca morrerão, por mais que as redes sociais pareçam cada vez mais sedutoras para as grandes massas.

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